Quando tudo pede um pouco mais de calma

“Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

A vida não para”

Lenine

Tivemos uma longa (e profunda) jornada até aqui. Mas, afinal, que aprendemos sobre paciência? Começamos fazendo um convite inesperado para você – e para nós mesmos – nos desconectarmos da loucura do seu ambiente de trabalho, parar um pouco e respirar. Bem fundo. Porque quando a gente para, passa a escutar o que o nosso corpo tem a dizer. Em meio ao caos, ele sussurra, pede socorro, mas na maioria das vezes, deixamos nosso corpo no vácuo. Não damos ouvidos justamente porque estamos muito ocupados, correndo, uns de nós até se descabelando. E todos nós nos vemos, no final do dia, tão impacientes que chega a dar medo. Você se pega se irritando com coisa pequena, aumentando o tom de voz para conversar com o colega da mesa ao lado, levando para casa os problemas não solucionados, a raiva contida, o grito que ficou contido. Ou que escapou mais alto do que deveria ser.

Quando começamos, trouxemos um questionamento: você acredita que ser forçado a esperar torna as pessoas mais bem-sucedidas? Até para nós (confessamos!) foi difícil de aceitar. Porque, hoje, esperar por algo é tão difícil, que optamos por tentar antecipar o futuro para chegar mais rápido ao sucesso, mas esquecemos que temos muito o que aprender com o passado, que não está tão distante assim. O imediatismo do mundo nos obriga a correr, enquanto a melhor solução seria justamente o contrário: parar.

Pensar em paciência dentro do universo corporativo é como colocar a linha no buraco da agulha. Pode parecer impossível, mas no final sempre dá certo e a gente consegue costurar com calma uma situação tomada pelo stress. É verdade que a paciência tem limite, mas isso não significa que ela se esgota facilmente. menos, não deveria.

Será que temos tempo a perder?

Ninguém nunca quer esperar, muito menos perder. A ideia da perda é dolorosa, e está muito relacionada à vulnerabilidade. Um profissional que se sente vulnerável coloca em xeque a sua performance, e todo o time pode ser afetado. Mas e se esse profissional decide parar e recobrar o autocontrole para deixar a irritação de lado e abusar da calma para tomar as melhores decisões? Sim, quando estamos impacientes, uma simples conversa vira discussão, e um argumento se transforma numa guerra sem fim e, mais do que isso, sem vencedores. A paciência tem tudo para dar match com o ambiente de trabalho porque flerta com a boa convivência, com a harmonia entre os colaboradores, com diálogos saudáveis e, com certeza, com projetos bem-sucedidos. E foi investigando sobre ser paciente no universo corporativo que descobrimos que ninguém nasce paciente. Desde que chegamos a esse mundo, choramos para conseguir comida, atenção, até para ir ao banheiro. Mas a gente aprende a esperar, treina a calma e conquista o autocontrole.

E não adianta convencer a nós mesmos de que todo mundo está correndo para ser feliz, para ter sucesso, para construir uma família, para ficar em paz. Vai chegar um momento, como esse tempo desconhecido em que estamos vivendo agora, que a única alternativa – e mais sábia – é simplesmente esperar. Porque o que está por vir pode ser infinitamente melhor do que você imagina.

“Enquanto todo mundo espera a cura do mal

E a loucura finge que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência”

Nesse caminho que trilhamos juntos em busca da paciência, entendemos que levantar a bandeira branca em meio ao conflito no trabalho é escolher refletir e agir antes da bomba estourar. Mesmo sabendo que o conflito faz parte da natureza humana, e que cada um lida com ele de uma forma diferente, você vai se surpreender ao ver que, descobrir o código para desativar uma explosão de nervos, é libertador. E a única guerra que vale a pena declarar é contra a falta de paciência, abrindo espaço para a conciliação no lugar da divergência, para a solução ao invés da reação, para o equilíbrio contra a desavença, para a colaboração ao invés da discussão, e, claro, para o autocontrole, que faz com que essa combinação seja produtiva e efetiva de verdade.

Quando a gente encontra a calma, não há comunicação que seja violenta, não tem palavra que desperte o rancor. Quando trabalhamos a nossa paciência e a colocamos em prática dentro e fora do trabalho, o senso de comunidade cresce, e o resultado só pode ser a conexão. E num ambiente onde as pessoas se sentem conectadas e engajadas, não há espaço para conflitos ou desrespeito.

Aprendemos, ainda, que quando o corpo está em equilíbrio com a nossa mente, a gente consegue encontrar a calma em meio ao caos. A gente consegue se transformar para (re)encontrar a paz que tanto queremos. Saímos de um ambiente de tensão para caminhar em nosso próprio pace, num ritmo tangível e possível, porque sabemos que o destino que nos espera vai, pelo menos, parecer mais propício à nossa própria evolução, enquanto damos a mão para o outro que segue lado a lado. Você passa a desafiar os limites da sua paciência porque sabe que não pode invadir o limite do outro nessa troca diária, onde o objetivo é seguir sem se perturbar para conseguir acolher. Sem se condicionar, sem se cobrar tanto, apenas aceitando que sim, somos todos seres em evolução, e para olhar para o lado é preciso, antes, olhar para dentro. E florescer.

“O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós”

O mundo nos cobra a todo momento. Cobra, até, soluções para o inesperado em uma pandemia que nos tirou a liberdade, algo que nos é tão precioso. Mas o que o mundo espera de nós é a sabedoria para refletir antes de agir, sem atropelos nem desassossego. Então experimente, de novo, parar. E voltar um pouco para a época em que você, criança, aprendeu muito sobre o que é paciência com sua mãe (pai ou cuidador). E foi trazendo, pela sua natureza, esses ensinamentos para a vida adulta, em todos os vieses. Foi doloroso sim, desde o início, aprender a ser paciente, mas mesmo sem perceber, você já vem vivendo esse processo há muito tempo. Se descabela, não tem como mentir, mas recobra os ânimos e recomeça quando identifica o que te perturba. E se você olhar para isso sob um novo ponto de vista, pode até entender que sair da zona de conforto é o primeiro passo para tudo mudar de lugar.

Nessa rica jornada, vimos que a paciência é uma das virtudes que a empatia desperta em cada um de nós, e quando a gente procura compreender os próprios limites da calma, ficamos tranquilos em fazer as próximas escolhas porque estamos em equilíbrio por dentro e do lado de fora. Vale a pena relembrar que os gatilhos sempre vão existir, algo sempre vai tentar tirar a sua paciência, mas também sempre vai existir uma estratégia – convencional ou diferentona – para se manter no lugar de tranquilidade. Mesmo que isso seja, simplesmente, não fazer nada além de respirar. Bem fundo.

Quando você se permite viver um dia de cada vez, tudo ao seu passo, devagar e constante, você passa a se perguntar menos e avistar o começo das respostas. Tudo muda, o tempo todo, numa velocidade que nem sempre damos conta de acompanhar. Ao mesmo tempo em que estamos vivendo a vida lá fora, somos obrigados a nos trancafiar dentro de casa para lidar com algo que não fazemos a mínima ideia de como vencer. Passamos, então, a viver uma nova ansiedade, diferente de tudo o que conhecíamos até algumas poucas semanas atrás. Como ficar imune a tudo isso esperando que tudo volte ao normal? Desculpa, mas ainda não sabemos a resposta certa, ela ainda está perdida por aí esperando para ser encontrada.

Em todas as nossas pesquisas, leituras e divagações, o que podemos te dizer é que, ainda, sabemos muito pouco sobre a paciência. Que existem vários aspectos da neurociência por trás disso e, dentro do seu cérebro, têm milhares de estímulos que conversam – ou não! – entre si, e te levam por caminhos ensolarados e sombrios. E nesse balanço, nossa paciência vai sendo moldada, entre contornos, para que possamos lidar com com as situações das mais inesperadas possíveis. Em meio a tudo isso, esperar se torna um hábito, você toma gosto por ser calmo e, assim, tomar as melhores decisões baseadas no seu autocontrole. Você aprende que esperar é um mal bem necessário, é positivo, motivador. E lindo. Exatamente porque te faz estar presente.

Vivemos em uma turbulência cotidiana. Pirar se apresenta como a primeira opção, mas é uma escolha só sua se entregar à loucura. Às vezes temos a sensação de que o futuro chegou rápido demais, mas a gente não fica o tempo todo tentando desvendar o que vai acontecer amanhã?

É aí que, mais uma vez, fazemos esse convite: pare e reflita. Mas pare hoje, pare enquanto lê esse texto, e respire. Depois, se dê ao luxo de não ficar imaginando o amanhã, mas a rever o que você aprendeu ontem, ano passado, 20 anos atrás. O passado, independente se foi bom ou ruim (e tudo depende da perspectiva), é valioso. E o agora não poderia ter um nome mais significativo: presente, uma dádiva, uma chance pronta para ser aproveitada, vivida, experimentada. É hora de deixarmos de ser imediatistas, isso vai na contramão da espera. Assim como você, o futuro pode esperar. E a paciência é exatamente a chave que você precisa para chegar lá. 

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara”

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Paciência: 5 dicas de mães para que você aplique na sua vida profissional (e não perca as estribeiras)

Nota da editora: Um dos achados do nosso estudo em profundidade foi, justamente, sobre gênero. As mulheres são educadas e sensibilizadas para serem mais pacientes ao longo da vida. Isso, claro, vem da estruturalização do patriarcado que vê — erroneamente, diga-se de passagem — na resiliência e na tranquilidade uma pessoa mais submissa. Descobrimos, nos insights trazidos pela pesquisadora Andréia Rocha, que paciência é muito mais sobre ação do que passividade. Engana-se quem vê no ser paciente uma pessoa subalterna. Mesmo assim, nos valemos dessa nota para reafirmar que, de forma alguma, endossamos o pensamento de que a mulher é paciente por natureza ou precisa desenvolver a paciência por cultura. A pauta surgiu de dois comentários muito particulares em uma postagem que fizemos no Instagram da SPUTNiK, comunicando que lançaríamos conteúdos sobre a temática. Ambos vindos de mães e ambos compartilhando seus aprendizados com a maternidade e o desenvolvimento e nutrição de tal virtude. Esclarecimentos feitos, esperamos que façam uma boa leitura 🙂 

* * *

“Minha mandíbula aperta enquanto os vídeos do Hulu carregam. Eu bufo quando fico presa na fila lenta da cafeteria. Carros lentos na pista rápida me levam a uma onda de ódio. Tenho vergonha da rapidez com que perco a calma por causa dessas pequenas coisas. Sempre desejei ser uma pessoa mais paciente, mas é impressionante saber por onde começar.

Anna Goldfarb

Se você se identificou com o depoimento, saiba que mesmo que você não seja uma pessoa particularmente paciente hoje, ainda há esperança de ser uma pessoa mais paciente amanhã. Portanto, se com frequência você se sente exasperado mais do que gostaria, aqui estão algumas maneiras de manter esses impulsos irritantes sob controle compartilhadas com quem manja muito do assunto: Alice Motta e Bianca Dallegrave

Como ser mãe (pai, amiga, qualquer parente!) da paciência 

Não tem como negar: muito (ou quase tudo) daquilo que sabemos hoje, aprendemos com nossos pais ou cuidadores. A gente vai crescendo e vendo o quanto trazemos da nossa infância para a vida adulta e, parando para pensar nisso, você vai concordar com o que foi dito bem ali no início. Todo mundo aprende algo cotidianamente, e aprender a ser paciente pode ser doloroso, mas não é impossível. Em meio ao caos cotidiano, quem consegue ter calma para respirar antes de falar ou agir pode se sentir privilegiado — e quem não consegue pode ficar calmo porque tudo é aprendizado, vivência, experiência. É meio clichê parecer clichê, mas a gente realmente aprende muito quando passa a viver um dia de cada vez.

No universo corporativo, a paciência é o troféu que todos querem erguer. Só que, muitas vezes, não se sabe nem por onde começar a ser mais tranquilo e generoso, a estar aberto a ouvir antes de falar — o que ajuda, certamente, a evitar discussões e conflitos desnecessários. Felizmente, a paciência é um traço das nossa personalidade passível de mudanças, e isso significa que você só precisa aprender como manter seus impulsos sob controle para não explodir por qualquer que seja o motivo.

Voltando à nossa infância, muita gente é capaz de lembrar que fez seus cuidadores se descabelarem milhares de vezes, mas dá pra lembrar também que, na maioria das vezes, eles recobravam a calma e nos levavam juntos nessa toada, apaziguando os ânimos para tudo voltar ao normal. 

Alice é mãe do Tom (dois anos) e Head de Operações; Bianca tem o Enzo (cinco anos) e o Thomas (dois anos) e trabalha em um laboratório de inovação. As duas tiveram diversas experiências antes dos filhos chegarem para estarem, hoje, num lugar em que podem dizer que, sim, é possível se exercitar para ser mais paciente. Bianca diz que antes do nascimento da prole não tinha tanta consciência sobre a necessidade de respeitar o tempo de cada pessoa. Já Alice conta que, depois de Tom, teve de fazer uma mudança fundamental de prioridades, o que aumentou a sua paciência.

Com essas duas histórias inspiradoras, desafiamos você a parar pensar: como manter o controle, motivado pelo que essas mães nos ensinam? Reunimos algumas dicas que vão ajudar você ser mais paciente no trabalho, tal qual Alice e Bianca, que aprenderam que a paciência, um atributo essencial para a maternidade, tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nossa visão do outro. Vem de papel e caneta na mão 🙂 

Qual gatilho desperta sua ira?

Comece descobrindo o que ativa a sua falta de paciência para entender como pode assumir o controle das situações. É engraçado que tanto Alice quanto Bianca trouxeram o mesmo ponto de vista por meio da experiência simples das crianças em calçar sapatos, o que exige muita paciência dos dois lados. “Se você observar uma criança tentando amarrar o sapato nas primeiras vezes, vai se dar conta o quanto nós adultos temos a ansiedade de interferir nesse momento que é tão importante para que ela possa se desenvolver. Quando a gente tem essa relação com nossos filhos, isso acontece a todo instante nas pequenas tarefas do dia a dia”, Bianca relata. Nesse exemplo, você pode substituir o filho pelo colega de trabalho para ver quais atitudes simples despertam o desequilíbrio. E foi o que Alice percebeu: “Você tem ideia de quanto tempo uma criança de dois anos demora para calçar um chinelo sozinha? E quando o Uber está esperando, sabia que demora mais? Com meu filho tenho uma condição básica e imutável que me obriga a ter paciência: ele tem dois anos. Ele está aprendendo tudo, ele precisa desse tempo porque botar o chinelo é algo novo para ele. Acho que é justamente isso que refrescou meu olhar para o resto: será que essa pessoa está demorando para fazer esse relatório porque ela está com dificuldades? Será que precisa de ajuda? Isso me faz repensar a irritação sempre”.

O que foge à regra é também um bom exemplo de gatilho explosivo, e um combinado não cumprido se torna a faísca para o conflito começar. Bianca diz que isso a faz perder a calma, e que tentar preservar os combinados é algo que ajuda a não alimentar desconfortos pessoais que podem impactar as relações (em casa e no trabalho). 

Quais os riscos de explodir?

Quando você perde a paciência, é como se um alarme fosse disparado no seu cérebro para que a sua resposta seja qualquer outra que não a calma. A chave é saber como você pode interromper o ciclo vicioso e explosivo para conseguir avaliar os acontecimentos e ver que você pode agir diferente cedendo lugar às decisões certeiras. Os gatilhos sempre vão existir — e não pense que as estratégias para se manter no lugar de tranquilidade precisam ser convencionais —: vale tudo, inclusive não fazer nada além de respirar bem fundo. 

“Além de preservar os combinados, em alguns casos eu canto. Quando o Thomas faz alguma birra, em vez de eu ficar tentando conversar sobre a frustração dele, tento desviar a atenção para outra coisa, então às vezes eu canto, outras mudo de assunto, proponho uma brincadeira”, revela Bianca sobre essa habilidade que desenvolveu na maternidade (mas que pode ser levada para qualquer situação). No maternar de Alice, seu filho a “ensinou a desenvolver uma certa generosidade com o tempo”, o que ela entende como paciência. “Quando você tem um bebê, precisa compreender que o tempo daquele serzinho não respeita o que nós instituímos como medidas, eles demandam nossa atenção a qualquer momento e temos que estar bem e sã para atendê-lo. Isso certamente torna mais fácil a ideia de que você pode fazer as coisas sem pressa e que outras funções e pessoas podem esperar você acabar o que está fazendo com seu bebê para resolver suas demais funções”. Tente substituir o bebê por uma tarefa no trabalho e você vai pensar duas vezes antes de cobrar seu colaborador sobre algo que ele não teve tempo suficiente para terminar.

Dá para começar de novo?

Uma atitude bem infalível é olhar para a situação inteira, como se estivéssemos do lado de fora, para conseguir enxergá-la sob um ponto de vista diferente e a partir disso conseguir focar, por exemplo, não no que nos irrita, mas no que fazemos que irrita o outro. Isso pode ajudar você a encarar tudo de uma forma mais ampla e equilibrada. É preciso incluir a situação irritante dentro de um contexto maior para conectá-la com o que vai levá-lo ou levá-la a um resultado libertador. “Acho que antes eu era mais impaciente com os outros e comigo mesma, porém, com a maternidade, esse contexto muda radicalmente já que você não tem mais controle nenhum sobre o tempo do desenvolvimento dos seus filhos e o seu tempo está, automaticamente, atrelado a isso. Então não adianta ser impaciente, tem de saber ponderar e equilibrar. Às vezes, cedemos tanto para o outro que também acabamos desequilibrando o nosso próprio bem-estar interno, então tenho buscado compreender melhor esses limites para ficar mais tranquila com as minhas escolhas”, explica Bianca. 

Como treinar a paciência?

Para ser o bom profissional que é hoje, você teve experiências anteriores que puderam treinar você para o mercado de trabalho. O resultado desse treinamento foi imediato? Com certeza não. E com a paciência não seria diferente. Não é possível se tornar mais paciente da noite para o dia. É um treinamento diário até chegar ao dia em que você vai poder dizer que, sim, é uma pessoa que sabe encarar boa parte das situações com tranquilidade. Quando você é mãe, a todo momento é preciso exercitar o olhar porque precisa aprender e ensinar ao mesmo tempo — assim como um líder dentro da empresa, que não pode deixar a ansiedade tomar conta da situação. Tom ensinou a Alice que é preciso priorizar, que é necessário “aceitar que certas coisas podem demorar um pouco mais e ninguém vai morrer por isso, que é importante reconhecer o ritmo de cada pessoa em vez de impor seu ritmo a todo mundo”. Ao mesmo tempo, ela ensina a Tom que é fundamental ter paciência, respeitar o tempo das outras pessoas quando ele quer algo, entender que as necessidades dele não são a coisa mais importante a todo instante. “Acho que a paciência é uma das pontas do ensinamentos sobre empatia”, completa. 

É possível ser realista?

Agora, você está a poucos passos de dizer que é paciente porque sabe o que desperta a sua raiva e entende como controlar as situações (e como se controlar!). O aprendizado é assim mesmo: você precisa mudar alguns aspectos da sua rotina, alterar um pouco seu estilo de vida para reduzir o estresse e aumentar a calma. Mas é importante ser realista sobre o que é possível aprender e mudar e o que ainda não dá para mexer. E não tem nada de errado nisso, afinal, criar objetivos intangíveis é o detonador para a impaciência. Estar consciente do que pode ou não pode ser controlado por você é essencial para não ficar “dando murro em ponta de faca”.

Para Bianca, mesmo com os inúmeros aprendizados que a maternidade traz e a própria relação diária com os filhos, nem sempre é fácil levar tudo isso para o trabalho. “Tento com frequência promover um mindset voltado mais para o aprendizado e menos para a frustração do que deu errado — mas que pode dar certo na próxima vez que a gente tentar. Isso acaba trazendo uma nova perspectiva para as empresas, e que eu me identifico muito, que é o ‘antes feito que perfeito’. A busca constante do perfeccionismo tem matado (na maioria dos casos) as possibilidades de inovação, e vejo que essa busca é uma construção que vem da nossa infância. Outro ponto que acredito muito é sobre a organização das prioridades e dos combinados. Se temos isso claro no alinhamento e nas diretrizes centrais da empresa, tudo acaba fluindo de forma mais leve e eficiente”. Para arrematar o pensamento, Bianca levanta, ainda, um importante aspecto que a maternidade fez mudou dentro da vida profissional e pessoal em relação à empatia e acolhimento das vulnerabilidades, sejam as dela, dos filhos ou de quem ela trabalha junto: “Autoconhecer-se e entender quais são os sentimentos ativados de acordo com cada situação é fundamental para construir uma carreira sólida e humana. A maternidade é um grande despertar para tudo isso, pois junto com uma pessoa que nasceu, nasce também uma nova Bianca, agora mãe, e isso tudo altera a forma como vemos e entendemos o mundo e as pessoas”. 

Na experiência da Alice, ser mãe, em um contexto geral, trouxe mais clareza em relação ao lugar do trabalho em sua vida.. “Eu tento ser muito consciente dos meus passos e tento sempre olhar em volta, refletir sobre onde estou. Sempre fui assim. Sabia que a maternidade mudaria drasticamente a minha vida e quis buscar esse novo ponto de vista ativamente, me transformar por ele. De certa forma, acho que isso me fez chegar onde cheguei no meu trabalho e, ao mesmo tempo, conseguir viver a minha maternidade com plenitude, mesmo me dividindo em dois”.

Dicas extras (e valiosas!) das mães para você exercitar a sua paciência

A gente disse que você teria muito a aprender com essas mães sobre paciência, né? Por isso, não poderíamos deixar de fora algumas dicas que Alice e Bianca compartilharam com a gente  para exercitar a calmaria que há dentro de cada um de nós. Você pode, por exemplo, começar fazendo uma meditação logo na primeira hora da manhã como a Bianca faz, e desativar algumas notificações dos aplicativos de celular que tiram sua atenção (uma dica da Alice). O importante é descobrir a sua maneira de relaxar, respirar fundo e aproveitar algum momento do dia para exercitar a paciência. Quer mais? Aqui, ó: 

  • Ler livros longos que não sejam relacionados ao seu trabalho
  • Começar a exercitar um olhar mais atento a tudo, desligando o seu “modo automático” (uma boa tentativa é se comprometer a brincar com uma criança por trinta minutos sem pensar em mais nada, com presença ativa) 
  • Aproveitar momentos em que nada pode ser resolvido, como em uma viagem de avião, para desconectar e simplesmente só esperar chegar ao destino
  • Escutar podcasts com mulheres que falam de suas experiências pessoais e profissionais (muitas são mães também!): Jogo de Damas, Mamilos e É nóia minha
  • Investir em formação pessoal e profissional por meio de cursos, palestras, redes de apoio
  • Curtir seu tempo livre assistindo documentários interessantes: The secret life of babies, O começo da vida e One strange rock

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Paciência e universo corporativo: vai dar match?

Pare por um segundo para respirar e pense: você já perdeu a paciência hoje? Pode confessar que, muitas vezes, a gente não consegue segurar os impulsos e aumentar a voz é o primeiro passo para cair no abismo da irritação. Quando você percebe, já está mergulhado lá, de cabeça quente. Mas e se te contássemos que ser forçado a parar e respirar para esperar pelas coisas torna as pessoas mais bem-sucedidas, você acreditaria? Uma pesquisa publicada no Journal of Organizational Behavior and Human Decision Processes mostrou que, em um mundo preparado para o imediatismo, a paciência surge como uma virtude capaz de reforçar o valor de algo e, talvez ainda mais importante, gerar mais disposição para esperar. “Existem grandes recompensas para quem pode atrasar a gratificação. Basicamente, a pesquisa ensina que paciência e autocontrole predizem sucesso na vida, pelo menos tanto quanto ser inteligente (ou seja, habilidades cognitivas).”, relatou uma das pesquisadoras.

No ambiente corporativo, muitas vezes, a paciência é vista como sinal de fraqueza. Mas as coisas estão mudando — tanto para colaboradores quanto para lideranças. E sabe por quê? Aprender a ser tolerante com os próprios erros e com os dos outros, estando aberto a ouvir antes de ser ouvido, é a chave para manter o autocontrole e cultivar o dom de alcançar aquele segundo de equilíbrio que vai impedir que a tormenta se instale no seu dia a dia. Para Fishbach, também autor do estudo citado anteriormente, “a razão pela qual isso funciona é que as pessoas aprendem sobre si mesmas da mesma maneira que conseguem entender os outros, através da observação. Nós nos observamos esperando e aprendemos que valorizamos o que estamos esperando”. 

O universo corporativo, atento às novas demandas sociais, já está de olho nessas nuances de comportamento. O McDonalds, recentemente, enfrentou na prática o “efeito da paciência”. Depois de introduzir em seu menu uma opção feita com carne fresca — que leva um minuto a mais para cozinhar do que um hambúrguer congelado —, teve de lidar com clientes insatisfeitos e, eventualmente, irados. A paciência, claro, se esgotou rapidamente. No entanto, uma vez que os clientes sabiam que seus hambúrgueres estavam sendo feitos de um jeito mais premium — e que havia uma razão para o atraso —, a paciência aumentava. Quer um exemplo mais antigo? Na década de 70, o ketchup Heinz ainda era vendido em garrafas de vidro, o que aumentava o tempo até que o líquido descesse e finalmente saísse da embalagem, exigindo que os consumidores dessem as famosas batidinhas para acelerar o processo e esgotassem seus estoques de paciência. A solução foi comunicar, por meio de uma paródia com um hit musical de sucesso da época, o porquê da espera. Com o slogan “It’s slow good”, aumentaram a confiança subjetiva dos consumidores, garantindo que a demora era graças a espessura do produto estar ligada a uma qualidade superior. Resultado? Pessoas menos irritadas com suas “gratificações tardias”

Paciência tem limite? Sim, mas isso não significa esgotá-la rapidamente

A gente cresce ouvindo dos nossos pais: “olha que minha paciência tem limite”. E o que parecia apenas uma ameaça depois de alguma pirraça boba ou má resposta se transforma em uma crença que muitos de nós custa a identificar — e os vestígios dessa paciência que acaba bem rapidinho vai passando de geração para geração. Não é de se admirar que cada um de nós carrega a impaciência quando vai para seus ambientes de trabalho. Tudo pode estar calmo e, em questão de segundos, a nossa vulnerabilidade é colocada em xeque e toda a performance é prejudicada porque nos vemos fora da nossa zona de conforto, a ponto de explodir.

Mas espera! Respira beeeem fundo: seu cérebro precisa de um tempinho para recobrar o controle dos pensamentos antes de você começar tudo de novo (ou jogar tudo para o alto).

Sem paciência, uma simples conversa vira discussão, um argumento contrário na mesa de reunião pode levar todo o time a declarar guerra e, no final dela, todo mundo sai perdendo junto. Assim como a paciência, o autocontrole também atinge um limite que vai diminuindo conforme o uso, como mostrou um estudo da Universidade de Iowa liderado pelo neurocientista William Hedgcock. Em resumo, ele descobriu que o cérebro, quando identifica uma situação em que vamos precisar de autocontrole, nos manda um alerta do tipo “ei, existem várias respostas para isso, e algumas delas podem não ser boas”, enquanto o seu córtex pré-frontal vai sendo estimulado a cada esforço para resolver o caso, sinalizando que a paciência está no fim; é quase uma placa vermelha dizendo “perigo à frente” e você é a única pessoa que pode optar por uma atitude impensada ou manter a cabeça fria para tomar as melhores decisões. “Depois que a piscina (da paciência) secar, é menos provável que nos refresquemos na próxima vez que enfrentarmos uma situação que exige autocontrole porque leva tempo para enchê-la novamente”, concluiu Hedgcock.

Paciência flerta com boa convivência

Conviver harmoniosamente dentro do ambiente de trabalho é uma troca diária, que pode ser intensa, turbulenta, ou simplesmente pacífica. Concorda?

Na SPUTNiK, a gente acredita que tem como construir essa troca de diferentes formas para dar um Match sempre baseado no diálogo, para fazer todos os corres cotidianos, e isso inclui um tanto de inteligência relacional e mais um tanto de paciência. Muita gente (ok, quase todo mundo) quer gratificações instantâneas sem esperar muito: um aumento de salário, ser promovido, lançar um produto inovador. Mas qual é o custo desse imediatismo?

Você pode se desafiar a reduzir a velocidade – dentro e fora do escritório – dia após dia, como um treinamento mesmo, e conhecer uma pessoa paciente que você nunca imaginou ser. Tudo vem com a prática, e uma pesquisa publicada no Psychological Science Journal revelou que quando você se convence a esperar por algo, você na verdade vai se sentir mais feliz a longo prazo porque aprende a trabalhar sua paciência. Outra dica que pode parecer assustadora é aprender a dizer não ao que vai atrapalhar a sua rotina de atividades, causar stress ou te deixar impaciente — e se você for o líder do seu time, essa impaciência pode afetar a performance dos demais. Isso é um dos malefícios de ser multitasking por exemplo, e é frustrante ver que não estamos progredindo porque às vezes não identificamos fatores simples que se colocam no meio do caminho: terminar uma tarefa antes de começar a outra é um bom começo para evitar esse rush sem fim.

Take it easy and slow down

Criatividade, produtividade, colaboração, qualidade e até a sustentabilidade das empresas. Tudo isso sofre os efeitos positivos da paciência no universo corporativo, e mais do que isso, no que o mercado atual exige de nós. No InSANO, tocamos na ferida da crise psicológica que precisa ser diagnosticada nas empresas para salvar seus colaboradores do caos para trabalhar feliz de verdade. E falar de paciência nesse contexto de descobertas saudáveis e produtivas tem tudo a ver com a melhoria da cultura organizacional, em que o espaço para a paciência tem de estar reservado em meio aos resultados tangíveis e decisões imediatas. Profissionais que praticam a paciência constroem melhores soluções para problemas, o que conduz a negociações bem-sucedidas e conquista de (auto)confiança. Quer um exemplo? Bill Gates, o homem por trás da grandiosidade da Microsoft, dá um stop na sua agenda duas vezes por ano para pensar no futuro da empresa em uma espécie de retiro que ele chama de “Think Week”. Ano passado, Gates se aventurou numa cabana no meio de uma floresta em algum lugar do Noroeste Pacífico para ler milhares de textos escritos por seus colaboradores, e em 1995, foi num desses momentos consigo mesmo que ele desenvolveu o Internet Explorer, o início do que entendemos hoje como navegador online. É ou não é uma boa prática trabalhar a paciência para conquistar a inovação?

A paciência é uma virtude – já dizia o sábio poeta inglês William Langland em 1360, no seu poema sobre um homem em busca de sua fé –, e não poderia ser diferente quando você se vê no seu ambiente de trabalho agora em 2020, em meio a tantas demandas e responsabilidades: sai ganhando quem consegue desenvolver a habilidade estratégica de parar e refletir antes de decidir qualquer coisa. Tudo muda quando os profissionais entendem que está tudo bem esperar para ver o que acontece, e enquanto isso simplesmente não fazer nada a respeito, e é assim que as organizações estão se reinventando. Cabe aqui dizer que, por incrível que pareça, a origem da paciência é a palavra que, em latim, define “sofrer, aguentar”, mas no mundo corporativo ela se ressignificou como tolerância, antes mal vista por também carregar o peso da passividade, hoje admirada porque representa evolução. Há tempos, paciência deixou de ser sinônimo de complacência quando se trabalha em equipe cedendo lugar ao entusiasmo de conseguir refletir melhor antes de seguir adiante, sozinho ou em grupo, rumo a qualquer que seja o objetivo que leve ao progresso. Agora, ser impaciente às mudanças é uma exceção que você pode abrir para conseguir enxergar além, aprender com os erros e esperar calmamente pelo que vem por aí. E pode ter certeza: quando você relaxa e respira fundo várias vezes, bem devagar, tudo parece mais fácil, e se isso deixa a gente mais feliz e preparado, vale a pena tentar.

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Comunicação não violenta no universo corporativo: será que dá liga?

A comunicação está no gene social da humanidade. Entretanto, sabemos, de fato, nos comunicar bem? Ouvimos genuinamente o outro ou só aguardamos, impacientes, nossa hora de falar? Dentro de um contexto massivo de polarização de ideias e ideais, saber como se comunicar de forma não violenta é importantíssimo para que consigamos derrubar muros e construir, juntos, mais pontes. Se o assunto já está saturado na vida pessoal, aplicá-lo no dia a dia corporativo ainda é um desafio e tanto. Difícl, mas não impossível. 

Afinal, o que é CNV?

Marshall Rosenberg é o psicólogo norte-americano por trás da criação do termo Comunicação Não Violenta (CNV) na década de 60, época em que a segregação começou a se fazer muito presente na sociedade global, assim como movimentos a favor dos direitos civis. Foi ele que, em meio ao caos, enxergou uma forma de contribuir para a luta contra a desigualdade e o racismo. De dentro dos espaços educacionais nos quais trabalhava, ecoou as técnicas que ficaram conhecidas principalmente para a resolução de conflitos. Adivinha onde? Sim, no ambiente de trabalho, expandindo, depois, para o âmbito social como um todo.

“Expressar nossa vulnerabilidade pode ajudar a resolver conflitos (…) Estamos acostumados a pensar que há algo de errado com as outras pessoas sempre que nossas necessidades não são satisfeitas. (…) CNV é expressar-se com honestidade, receber com empatia.”

Marshall Rosenberg

Conexão, compaixão e comunidade. Esses são os pilares da metodologia educacional criada por Rosenberg para aprimorar relacionamentos interpessoais e diminuir, de alguma maneira, a violência no mundo. Para difundir seus conhecimentos, Marshall inaugurou centros de estudos dedicados ao tema em vários países, inclusive no Brasil. A CNV tem como alicerce a comunicação que une os indivíduos, que permite falar e ouvir na mesma medida, que traz a compaixão como ingrediente principal da conexão. Importando o conceito para dentro do universo corporativo, podemos entender como nutrir uma nova forma de se expressar e ouvir conscientemente de acordo com cada situação — e o conflito (incluir aqui o link do texto 2 sobre conflito) é um bom exemplo disso. A partir das técnicas da comunicação não violenta, é possível estabelecer comportamentos harmoniosos inspirados pelo diálogo, respeito, atenção e empatia.

E por falar em empatia, a CNV é também conhecida como comunicação empática, e, de acordo com o legado de Rosenberg, é fundamental se concentrar em quatro pontos que norteiam o método e podem ser decisivos na comunicação organizacional, quando o objetivo é substituir o foco nas atitudes e falas do outro pelo foco em suas reais necessidades:

1 – Observação

Paramos de avaliar e julgar o outro para observar o que o outro está fazendo sem considerar a sua visão sobre o assunto. Exemplo no ambiente de trabalho: você delega uma tarefa e ao receber o job critica a execução, o que demonstra que está julgando antes mesmo de refletir e observar.

2 – Sentimento

É a aceitação do seu sentimento frente ao que foi observado anteriormente. Exemplo na situação anterior: após observar e alterar o feedback trazendo pontos que podem ser melhorados, você entende que se sentiu frustrado porque a tarefa não superou suas expectativas. 

3 – Necessidades

É hora de identificar as necessidades que não foram atendidas e que se relacionam com o sentimento anterior. Dentro do nosso exemplo: você pode explicar melhor o que era para ser feito na tarefa, aprofundando em detalhes mais específicos para que cumpra o objetivo esperado.

4 – Pedidos

Depois de observar, descobrir o sentimento e identificar a necessidade, o último passo é formular um pedido ideal. Para finalizar usando a nossa jornada: no caso da tarefa, você vai escrever ou falar com o colaborador os pontos observados, as melhorias que poderiam ter sido apresentadas, expressar o seu sentimento de frustração e pedir, com educação e respeito, que o trabalho seja revisado ou refeito. É ou não é muito mais efetivo do que simplesmente dizer “não gostei do resultado, está péssimo!”?

CNV funciona no dia a dia de trabalho?

Em resumo, você pode encarar a comunicação não violenta como uma forma de observar, entender os sentimentos e encontrar a melhor forma de se conectar com os gatilhos que desencadeiam determinados comportamentos. Na verdade, dentro e fora do trabalho, todos temos a capacidade de sentir e agir com compaixão, pensando no outro, e essa conexão com si mesmo e com seus colegas é o que vai te ajudar a trabalhar a sua paciência, estando sempre de coração aberto para ir além do simples “certo e errado”.

De acordo com a revisão sistemática de pesquisas a partir de 2013 realizada por Carme Mampel Juncadella sobre como a CNV pode ser aplicada para desenvolver a empatia, essa abordagem oferece a vantagem de um conjunto bem definido e padronizado de construções e processos ensinados em um treinamento dinâmico e estruturado. Porém, vale ressaltar que o aspecto multidimensional da empatia dificulta a mensuração de dados, por exemplo, no que ela definiu como um inevitável viés de subjetividade. Mas é bem possível destacar a inter-relação íntima entre o aprimoramento da empatia com as habilidades de resolução de conflitos, de comunicação e de relacionamentos, consistente com pesquisas anteriores sobre empatia e comportamento social.

Dar o primeiro passo para implantar a CNV é entender que esse não é um processo mecânico, muito pelo contrário, é algo que vai ser construído por todos. E isso não significa seguir dicas ou passos cegamente, mas identificar as emoções do outro e como ele se enxerga para conseguir, juntos, trilhar um caminho de equilíbrio e empatia. Todo dia é um novo momento de aprender, observar e pensar antes de falar ou tomar alguma atitude. E o que mais pode ser interessante nesse processo?

  • Saber o seu papel: não importa se você é o líder ou o colaborador, o exercício é sempre se colocar no lugar do outro antes de fazer ou ouvir críticas, e as etapas de observação, sentimento, necessidades e pedido é uma via de mão dupla dentro do universo corporativo.
  • Exercitar o diálogo: aprender a falar e a ouvir é um task diário, e ao longo do trajeto, você vai descobrir dinâmicas, desafios e práticas que vão favorecer a CNV como um hábito dentro da empresa.
  • Enxergar além do comportamento: Marshall concluiu que, por trás de todo comportamento, há uma necessidade, e isso traduz a ideia de que quando você consegue ver a motivação que leva à ação, você encontra o que está gerando o conflito de verdade para criar discussões saudáveis e livres de julgamentos.
  • Baixar a guarda:  pode parecer complicado, mas se desarmar quando está se comunicando no ambiente de trabalho é abrir espaço para uma conexão mútua.
  • Descobrir os gatilhos: passe a se perguntar o que faz com que você tenha dificuldades em se comunicar com os outros para começar a trabalhar em cada um dos gatilhos em você primeiro, mas depois conseguir ajudar os demais também.
  • Expressar e receber: quando você se expressa com autenticidade, consegue receber o que vem do outro com mais empatia, isso é primordial para trabalhar em equipe e, mais do que isso, para vencer os obstáculos juntos.

Como você viu aqui, por trás de toda a metodologia da Comunicação não violenta, o objetivo é fortalecer os vínculos entre as pessoas, dando o valor que as relações saudáveis dentro e fora do ambiente de trabalho merecem. Quando os colaboradores e líderes percebem que estão sendo motivados a construir a empatia uns pelos outros, não tem como evitar o clima harmonioso que vai se instalar, acompanhado do aumento da produtividade, da satisfação e, claro, dos ótimos resultados. E num ambiente onde as pessoas se sentem conectadas e engajadas, não há espaço para conflitos ou desrespeito.

Baixe aqui o e-book com o estudo completo de paciência.

A hurry hurry world: passado, presente e futuro sob o viés da paciência

“É preciso permitir às coisas seu próprio passo…
É preciso viver tudo.
Quando se vive as perguntas, vive-se também,
talvez, aos poucos, sem que se perceba,
no romper de um dia desconhecido,
o começo das respostas.”


Rainer Maria Rilke

O mundo todo mudou em questão de segundos. Estávamos todos vivendo nossas vidas dentro da normalidade de cada um, e de repente, tudo mudou de lugar. Somos obrigados a nos trancafiar em casa porque não sabemos o que vai acontecer daqui algumas horas, se mais pessoas serão infectadas por um vírus que ainda desconhecemos por inteiro e, exatamente por isso, ainda não sabemos como lidar nem acabar com ele. A correria da rotina foi transportada para dentro de casa, e quem pode já está se adaptando à nova realidade do home office “forçado”. Passamos, de algumas semanas para cá, a viver uma nova ansiedade crescente e periclitante, diferente de tudo o que conhecíamos há alguns dias atrás. Como ficar imune à impaciência de não saber quando tudo volta ao normal?

Porém, mesmo com a pandemia, algumas coisas não mudaram: agendas abarrotadas, compromissos inadiáveis, entregas urgentes. Demandas profissionais, pessoais e um mundo que busca cada vez mais que o indivíduo performe bem. Conflitos internos, externos, desavenças no home office e na convivência em casa. Polarização política, novas doenças, catástrofes ambientais. E existe, ainda, um medo por não saber como encarar essa pressão causada por um vírus, que está por um triz de nos conduzir ao Burnout – síndrome ligada ao esgotamento físico e mental dos profissionais em ambientes de trabalho –, que antes do mundo virar de ponta-cabeça, já tinha crescido 114,8% entre 2017 e 2018

Só nos resta nos perguntar: e nós, como ficamos nessa nova panela de pressão cotidiana?

2020 chegou e, na última década, tivemos a sensação de que o tempo se espremeu. Com a pandemia e o isolamento social — a quem tem esse privilégio —, a percepção temporal muda, de novo, completamente. Em tempos de home office, parece que, cada vez mais, falta hora no dia. Antes, a sensação era de que, mais agitados e corridos, perdemos a capacidade de parar. De tomar tempo e espaço para pensar melhor, para aproveitarmos o ócio ou para, com calma, resolver aquele problema ou outro. Agora, somos forçados a frear. Em ambos os cenários, a paciência é um ativo social necessário — tanto na vida pessoal quanto na profissional —, percebe? 

A gente era mais paciente no passado?

O que parece tão corriqueiro deixou de ser um hábito: você não se dá ao luxo de pensar em como a sua vida era antes — e por antes entenda poucos anos atrás. Você só pensa no futuro, e se esquece também de que o foco no presente é o que pode definir como será o seu amanhã. Decidimos, então, voltar um passo para tentar entender em qual momento a nossa paciência começou a se esgotar (ou pelo menos termos uma ideia de quando a sociedade em geral passou a perder as estribeiras tão facilmente).

A impaciência tem muito da sua origem na intolerância. A convivência entre bilhões de indivíduos com crenças e valores tão distintos – o que não exclui os problemas entre quem compartilha dos mesmos – é um processo bem complexo. As diferenças geram a falta de tolerância, o que leva ao desrespeito e, inevitavelmente, à violência. E quando a gente diz violência pode parecer algo grande. Mas não. Pequenos atos também são capazes de destruir relacionamentos, ferir sentimentos, causar mortes (mesmo que seja só da alma). E os grandes acontecimentos são responsáveis por marcar toda uma história. Não é preciso ir muito longe para chegar ao Holocausto, genocídio nazista contra os judeus ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-45), motivado pelo que os alemães apontavam como diferenças. Fruto das perdas imensuráveis do Holocausto e para combater futuras atrocidades do tipo, nasceu a Declaração Universal dos Direitos Humanos na luta pelo bem de todos os seres, iguais por natureza.

Esse é apenas um exemplo do que acontece quando o individualismo toma o lugar do coletivo, e as satisfações pessoais engolem o bem comum. Pensar em si mesmo é o motor propulsor do que chamamos de imediatismo: opiniões que divergem das minhas não são válidas nem muito menos toleráveis. É como se caminhássemos contra a conexão entre as pessoas de um jeito ansioso e intolerante. E como é possível viver e trabalhar em um tempo em que o passado “não existe”, o futuro é incerto e temos problemas de relacionamento tão profundos e arraigados porque não exercitamos o autocontrole no presente? 

As mudanças nesse ritmo de vida alucinante não são recentes e lá nos anos 70 Alvin Toffler, ao lançar O choque do futuro, foi considerado um louco que tentava prever o futuro. O que muitos não contavam é que algumas de suas hipóteses se confirmariam poucos anos depois. Ele bem disse que viveríamos “um excesso de mudanças em um curto espaço de tempo”, o que era exatamente o tal choque que deu nome ao livro. E adivinha sobre o que mais ele falava? Para Toffler, o estresse generalizado dos trabalhadores, gerado pela revolução industrial, seria uma característica inata da disrupção que a tecnologia digital traria. O que ele chamou de chegada prematura do futuro é a desorientação que domina a nossa rotina pessoal e profissional hoje, prevista no tempo dele como “a mais importante doença do amanhã”.

O analfabeto de amanhã não será aquele que não sabe ler, mas aquele que não aprendeu como aprender.

Herbert Gerjuoy

O choque do futuro previsto por Toffler é nada menos do que essa sobrecarga de informação com a qual a gente lida a todo momento. É a desorientação que o bombardeio trazido pelas redes sociais nos causa porque alimenta a ideia de que o outro é sempre mais feliz do que nós mesmos, e que, portanto, nunca alcançamos a perfeição, que na verdade não existe. E é, ainda, a maneira com a qual a gente precisa olhar para esse mundo acelerado e descobrir como acompanhar todas as mudanças sem nos sentirmos tomados pela ansiedade. 

O imediatismo de não esperar por mais nada

No passado, muitas vezes fomos obrigados a esperar porque as coisas aconteciam num compasso diferente, devagar. Só que, também num piscar de olhos, a internet e as redes sociais chegaram para virar nossa rotina de cabeça para baixo. Ficamos desacostumados a ter calma. Queremos tudo para ontem (mesmo bloqueando o que aprendemos logo ali atrás). Aquela semente da intolerância plantada no passado não muito distante foi semeada na cultura do imediatismo. Não temos paciência para o futuro chegar, mas queremos escapar do presente a todo custo. Aí, só sobra lugar para o caos se instalar.

Recebemos uma enxurrada de informações desconexas para serem compreendidas no curto espaço de tempo entre abrir um app de notícias no celular e ter de responder outras 350 mensagens na caixa de entrada do e-mail — em tempos de pandemia, então, o mar de informações é ainda mais amplo (e possivelmente mentiroso). Nada pode esperar nessa linha do tempo indefinida, e a gente fica, mais do que imaginamos, paralisados — porém ainda a ponto de explodir e (re)agir. O que poderia ser planejado é atropelado por prazos intangíveis e agendas desenfreadas. Uma tarefa atrás da outra e você nem se lembra mais o que é sair da sua mesa de escritório e tomar um café, conversando calmamente sobre a nova palavra que sua filha aprendeu ontem ou aquele seriado que finalmente teve tempo de assistir. Assim, as relações dentro do trabalho e fora dele se tornam superficiais, e o resultado pode ser trágico já que seu estoque de paciência vai se esvaindo, a irritação se instalando e a catástrofe acontecendo dia após dia. (linkar com texto 2 – paciência/conflitos)

Em busca de uma nova forma de se relacionar com o tempo, o professor Douglas Rushkoff encontrou em Present shock: when everything happens now algumas respostas para nosso instante prolongado no presente, que torna inviável pensar no que passou por ser antiquado, e também incerto considerar o que virá por tudo mudar rápido demais. Como a gente faz, então, para não ficar congelado num lugar que nem sabemos onde fica?

Rushkoff chama nossa atenção para a paciência necessária contra a desorientação. As pessoas não se envolvem com mais nada porque estão sempre correndo para resolver dezenas de outras coisas; tomamos decisões impensadas sem medir consequências, e isso afeta todo mundo ao redor. Ele diz que perdemos a chance de entender uma narrativa porque não podemos desperdiçar nosso tempo para olhar para o cenário completo; e é impressionante ver que as pessoas vendem seu tempo, e até o novo dinheiro — as criptomoedas — tem o cronômetro correndo em sua essência, o que inverte a famosa máxima de Benjamin Franklin porque o dinheiro é tempo, e não o contrário. O tempo passou a ser visto como inimigo, algo que se quer conquistar, literalmente, a qualquer preço numa corrida louca contra o relógio. Nessa loucura, a internet trouxe um novo território: o que era espaço de inovação se tornou um território de tempo humano, no qual as coisas acontecem sem intervalo para parar e pensar. A vida se tornou automática. E para ele, a grande descoberta é como cada um “recupera” esse tempo tirado de nós, o que talvez seja tarde demais. As pessoas se transformaram em uma ferramenta das empresas para manter o jogo acontecendo, e a parte humana vai se perdendo num sistema que coloca os valores humanos como obsoletos.

“Estamos presos a uma diminuição de tudo o que não está acontecendo agora — e o ataque de tudo o que supostamente é.”

Douglas Rushkoff

Hoje, dizer “obrigado pelo seu tempo” ganha um novo significado porque quando uma pessoa se dedica a algo que você solicitou com afinco e, claro, paciência, é como se fosse uma conquista de ambos os lados. E isso acontece porque, quando tudo tem de ser realizado agora, você começa a desenvolver, desde a infância, a ansiedade do não ter de esperar por mais nada, o que nos torna pais impacientes que não conseguem transmitir a paciência aos filhos. (linkar com texto 5 – paciência/mães) Todo mundo não tem tempo e, como bem pontuou Rushkoff, essa “digifrenia” online causa o caos mental, e se proteger da distração é uma tarefa quase impossível. Deixamos aqui um desafio: ao conversar com seu colega de trabalho, experimente esquecer a notificação que vibra no celular e foque pura e simplesmente nesse contato visual. Pode acreditar, a conexão real vai ser muito mais produtiva do que a digital, que deveria, na verdade, estar a serviço da nossa realidade (e não causando a destruição dela). Em tempos de home office e calls, nossa sugestão é que você olhe para a câmera quando for falar — e não para a imagem do seu interlocutor na tela. Pode, de início, parecer estranho, mas logo você vai perceber que esse pequeno ajuste faz uma grande diferença na forma como vocês se conectam. 

O futuro pode esperar: a paciência é a chave para você chegar lá

O imediatismo causa o afastamento, e a gente vivencia isso a todo instante no ambiente de trabalho porque vemos a dificuldade em estabelecer relações saudáveis. Queremos produzir, produzir, produzir, e não sobra nem um intervalo para cultivar essa conexão com o outro, que está bem ali na mesa ao lado ou a um clique da webcam. 

A ansiedade, a dor maior do “tudo ao mesmo tempo agora”, é – pasmem – o que mais leva pessoas ao suicídio, uma a cada quarenta segundos, em todo o mundo. A gente precisa entender que esse imediatismo não é um distúrbio psicológico, mas é aonde ele pode nos levar. E agora é o momento ideal de parar, respirar fundo e olhar para frente com a paciência necessária que pode nos conduzir à sanidade amanhã.

Repetimos aqui a pergunta que fizemos lá no início dessa reflexão: e nós, como ficamos?

Quanto mais a gente se afunda no imediatismo, mais dificuldades temos de encarar, com calma, os percalços no dia a dia, por menores que sejam. Ficamos frustrados, ansiosos e impacientes porque não é sempre que resolvemos todas as pendências ou cumprimos prazos. Pensando em como estamos vivendo uma era de transformações, em que, agora, observamos a volatilidade na prática, a SPUTNiK faz um convite: em tempos caóticos, como podemos, na medida do possível, nos sintonizarmos com a paciência e tirar, dessa virtude, os inúmeros benefícios que ela pode nos oferecer, tanto na vida pessoal quanto na profissional? Queremos que você tenha a paciência como ferramenta para se preparar para o que vem por aí, para lidar com tudo sem pirar. 

Em parceria com Andréia Matos, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Pesquisa de Tendências pelo Istituto Europeo di Design de Barcelona, fizemos um estudo profundo mergulhando em todos os vieses dessa virtude tão essencial para o futuro que desejamos. Para Andréia, pesquisar sobre o assunto ressoou forte entre os seus ideais, o que a fez perceber que, apesar de toda yoga e meditação que pratica, ainda tem muita falta de paciência para ser trabalhada por lá. Por aqui, e com certeza aí do seu lado, também. Acho que você vai gostar do que descobrimos juntos 🙂

É preciso aceitar a cultura slow para estarmos realmente presentes em tudo o que fazemos, e nesse cenário, a paciência é mais do que espera, é constância e atenção às tarefas como parte da cultura organizacional que muda a cada década. Falamos na pesquisa sobre a (im)paciência do universo corporativo. A urgência mudou de significado porque, hoje, nada mais pode esperar. A métrica de curto prazo das empresas é o novo caminho para o sucesso. Mas aí, em meio ao caos, somos todos obrigados a parar para repensar uma dinâmica inteira de trabalho enquanto um vírus chega e desestrutura todo o cenário mundial, nos deixando sem respostas imediatas. O que antes era importante, como o tempo de cada profissional dentro de uma empresa, hoje é substituído pelo valor das entregas feitas e do desempenho do indivíduo, independente se está há dez anos ou dez dias como parte do time. Profissionais de 25 a 34 anos já acumulam em seus currículos, em média, 6 empregos, enquanto muitos dos aposentados acumularam sete empregos em toda uma carreira. Hoje não se cultiva o apego, apenas o crescimento rápido. E, assim, passa-se a alimentar a ilusão do empreendedorismo de que o sucesso acontece num piscar de olhos, enquanto se deveria olhar para o tempo em que determinada ideia foi talhada para ser, finalmente, inovadora e excepcional. O que não se pode perder de vista, porém, é que se manter no sucesso envolve justamente essa tal de paciência, combinada com resiliência e muita adaptação a momentos incertos — como o que estamos vivendo agora — e ao que ainda vai acontecer.

Nosso estudo também mostrou que, quando você perde a paciência no trabalho, isso pode ser o resultado de algo que não conseguiu resolver consigo mesmo e, assim como o povo japonês, às vezes suprimir sentimentos negativos pode ter um impacto também negativo: explosões de fúria e até mesmo doenças psicossomáticas. É preciso entender que tempo e energia são recursos limitados, e parar de gastar seus esforços em algum projeto ou ideia pode ser mais promissor do que tentar controlar o incontrolável. Isso serve também para os relacionamentos no ambiente corporativo, em que a escuta está cada vez mais escassa (mesmo que extremamente tecnológica). Ser paciente é pensar antes de agir, em vez de reagir; é usar os princípios da Comunicação não violenta para observar a situação como um todo (uma tarefa a ser cumprida, por exemplo), sentir como isso te afeta como responsável pela demanda, identificar a necessidade que não foi atendida pelo colaborador para, enfim, definir como o pedido de execução deveria ter sido feito para que todas as expectativas fossem alcançadas, sem perder a calma nem as estribeiras. Tudo isso mostra que, quando você é paciente, consegue maximizar seu tempo antes de tomar a decisão mais acertada, aceitando o tempo como seu aliado no mesmo ritmo em que entende que, dessa forma, você age seguindo a lógica da realidade, não da impulsividade, porque alcançou o que muitos de nós ainda não conseguiu conquistar: o autocontrole.

Descobrimos que a paciência — algo que todo mundo pode conquistar por meio de treinos diários —  é o novo diferencial do trabalhador no cenário impaciente do século 21, marcado por essa cultura do imediatismo e, na mesma proporção, pelo excesso do individualismo. Pensar e se colocar no lugar do outro é doloroso para muitas pessoas porque somos convidados a mergulhar tanto em nós mesmos e nos esquecemos que, lá no fundo, o “eu” não existe sem o “nós”. É hora de mudar a chave da competição para abrir espaço para a colaboração, mesmo quando a tecnologia tentar te desviar do verdadeiro sentido de conexão: para inventar a internet, o smartphone, o airpod e a realidade aumentada, pessoas se juntaram para trazer ao mundo a inovação, uma união de carne, osso e muita inteligência não artificial, real, humana, sensível e incomparável. Antes de ser um colaborador ou um líder, somos seres humanos capazes de aprender, desaprender e reaprender todos os dias, juntos, porque a paciência é o que nos faz aproveitar o tempo para evoluir, desacelerando processos para, enfim, interligar pessoas. É, aliás, o caminho que aponta o filósofo Yurval Harari para a atual crise que nos acomete globalmente: “O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, é a cooperação”. 

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O que aquele best-seller de autoajuda não vai te contar sobre autoconhecimento

Introspecção rumo ao autoconhecimento: pelo menos desde o século 19, quando Samuel Smiles publica “Autoajuda” — considerado um dos primeiros livros do gênero popular —, há registros no mercado editorial de textos que propõem o exercício de olhar para dentro como forma de investigar a si mesmo. 

Tal busca, aliás, sempre foi analisada por filósofos como Platão, Sócrates, Spinoza e, mais tarde, Nietzsche, Sartre e Freud, que, de acordo com suas respectivas experiências e contextos históricos, presumiram diferentes ideias e práticas de como encontrar o caminho para a autoinvestigação. Na SPUTNiK, levamos a sério essa viagem e vamos dividir, aqui com você, alguns insights sobre o assunto. Vem com a gente. 

Ainda no tempo em que o termo “autoajuda” nem era ouvido, a humanidade já especulava sobre o conhecimento do indivíduo sobre si. Diferentemente de ter consciência sobre objetos e sujeitos alheios a nós, que exigem evidências para que acreditemos em suas existências, o autoconhecimento beira a lógica e o imediatismo, pois tanto o discernimento quanto o acesso ao próprio pensamento estão relacionados à razão experienciada unicamente pela espécie humana. 

O que aquele best-seller de autoajuda não te conta sobre autoconhecimento é que esse processo vai muito além de aprender a contornar problemas, controlar emoções e encontrar o sucesso, pessoal e/ou profissional.

Em primeiro lugar, essa jornada dura toda uma vida, afinal, somos indivíduos mutáveis, que incorporam valores e descartam ideias ao julgarem as realidades em que vivem. Depois,, cada um de nós trilhará o caminho do autoconhecimento à sua maneira e ao seu tempo, o que não acontece prontamente e exige muita reflexão e interpretação sobre atitudes corriqueiras e emoções internalizadas.

A jornada por essa autoanálise parece abstrata e intensa (o que de fato é), porém está mais próxima de você do que parece.

Para servir de guia pelos primeiros passos dessa estrada, a SPUTNiK compartilha quatro dicas que provam por que investir nesse processo pode se tornar o mapa de uma mina de ouro em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Olha só!

Pense sobre quem você foi, é e será!

Ao longo da vida, especulamos sobre diversas possibilidades de quem seremos no futuro. Mas, além desse raciocínio, é importante lembrar quais eram nossas ambições e expectativas do passado para refletir sobre o que de tudo aquilo foi possível realizar no presente.

Pensar na própria história é um belo exercício como ponto de partida do autoconhecimento. Relembre suas fases de menor maturidade e reveja quais eram seus “nós” e como você os solucionou até agora. Resgate memórias de períodos mais ou menos motivados para lembrar que algumas realizações já pareceram distantes demais até se tornarem possíveis, ou até não aconteceram, mas foram seguidas de experiências frutíferas.

Faça também uma leitura do que as pessoas falam sobre suas ações. Pense pelo o que você é criticado e elogiado, para, com uma visão geral, aperfeiçoar o que é positivo e flexibilizar os pontos nos quais existem problemas.

Mapeie mentalmente seus pontos fortes e fracos

Entender nossas qualidades e defeitos permite construir uma identidade mais coerente, assim como lidar com bloqueios e limitações que impedem de prosseguir nosso crescimento pessoal.

Identificar as diferenças e considerá-las ferramentas de poder (e não fraqueza) é um dos primeiros passos do percurso em questão e, afinal, é assim que seremos capazes de guiar pontos fortes e fracos a nosso favor.

Na posição de líder de um time que busca engajamento, é essencial que você se conheça para expressar da melhor maneira suas ideias e reconhecer questões comuns ou opostas a seus colegas, tendo como resultado um workflow orgânico e eficiente.

Como benefício, observará melhorias na gestão de conflitos, na ampliação de possibilidades criativas e no estabelecimento de comunicações mais empáticas e afetuosas.

Todo mundo tem problemas (e você também)

Liderar envolve compreender que todos temos facilidades e dificuldades específicas, facilitando a organização de um time produtivo que, ao mesmo tempo, se sente respeitado.

Toda equipe é composta por pessoas que, às vezes, sentirão raiva por não conseguirem se comunicar, terão baixa autoestima por não ter confiança em suas ideias ou até tristeza pela falta de compreensão.

Dando o ponta pé inicial ao seu processo de autoconhecimento, será capaz de guiar outros colegas nessa missão, pois o reconhecimento da existência de terceiros e dos dilemas que os envolvem só é possível após a visualização e interpretação das suas próprias questões.

Se conhecer para agir e comunicar com liberdade

Em entrevista à SPUTNiK, o artista e professor Márcio Libar destaca como o autoconhecimento está ligado à nossa proximidade de objetos e ações que nos provocam boas emoções. Mas, para reconhecê-los, é necessário definir uma hierarquia de valores.

Se algo no trabalho causa mau humor, é preciso identificar o problema e reconhecer qual é o valor atribuído a ele por você. Se essa prática não acontecer, uma emoção descontrolada tomará conta da razão, causando expressões e comportamentos estranhos às pessoas que o circundam.

“No final das contas, está tudo relacionado ao acesso às emoções e o reconhecimento de sensações que causam desconforto. Quem transita próximo a seus pontos fortes fica mais perto de seus valores e, assim, mais suscetível à situações agradáveis — e o contrário idem”, comentou o professor integrante do curso de Hack Pessoal da SPUTNiK.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

O sonho da Universidade Corporativa própria

A receita de bolo já está dada: se uma determinada empresa visa o crescimento coletivo, investir no capital humano é parte inegociável do plano. Por isso, 2019 cimentou as Universidades Corporativas como pilares fundamentais para marcas que não querem ficar fora do jogo. Verdadeiros laboratórios de aprendizagem, as UCs são espaços estratégicos de desenvolvimento para colaboradores, fornecedores e até mesmo para clientes. 

Nesse contexto, apostar em internalizar o processo, em trazê-lo para dentro dos próprios ambientes de trabalho, foi um grito de alforria do universo corporativo frente às instituições de ensino superior tradicionais. Mais autônomas, as empresas tomam as rédeas de seus próprios negócios e criam unidades — presenciais ou online — de acordo com suas necessidades e com as demandas de seu quadro de colaboradores. É uma iniciativa-chave para, no fim das contas, posicionar-se à frente na corrida competitiva em que o conhecimento exigido dos profissionais muda a galope. 

Na SPUTNiK vemos o treinamento de pessoas como uma jornada de autoconhecimento — dos colaboradores e da própria marca.

E se lá atrás as UCs surgiram para preencher lacunas de hard skills, aos poucos novas demandas passaram a desafiar a forma como nos desenvolvemos profissionalmente. A transformação digital que tanto falamos, aliás, foi a aceleradora deste processo. 

Conhecer as regras para depois quebrá-las

First things first: antes de entender como adaptar a Universidade Corporativa ao formato do seu negócio, é preciso entender como esse sistema de ensino funciona. Mais que uma universidade, o objetivo da UC é ser uma ferramenta estratégica voltada aos objetivos de determinado negócio. Ou seja, na prática, isso quer dizer que os benefícios irradiam para todos os lados — desde os colaboradores, passando pelas lideranças e chegando à empresa como marca. Retenção e desenvolvimento de novos talentos, estímulo a um ambiente corporativo mais saudável e aumento das vantagens competitivas são apenas algumas das benesses que esse sistema pode trazer. 

Com as bases já bem construídas, podemos, enfim, pensar em começar a quebrar os muros. Expandir o olhar é um primeiro passo: em vez de oferecer treinamentos engessados, em que o objetivo primeiro e único é otimizar o trabalho do profissional, por que não investir numa formação mais ampla, que olhe para o ser humano que há por trás de cada crachá? Times mais felizes, sabemos, trazem mais resultados. Outro caminho é inovar na forma de entregar o conhecimento que desenvolverá competências essenciais nos times. Mesmo estando alinhada à missão de uma determinada empresa, nada impede que a UC propague aquele jeito quadradão de ensinar. Aqui na SPUT, nosso propósito é provocar mudanças no universo corporativo por meio de uma educação criativa e disruptiva. Porque não faz muito sentido espalhar conhecimento por aí se não for de forma leve, divertida e, claro, com muita mão na massa. 

Imersão disruptiva criada especialmente para aula com times do setor de fraudes do Mercado Livre

Se não agora, quando? 

Já é fato consumado que a nova economia pede uma revisão do modelo corporativo atual e que uma Universidade Corporativa pode ter papel fundamental nessa transformação, mas será que há momento correto para colocar a iniciativa de pé? Mariana Achutti, founder e CEO da SPUTNiK, diz que investir nas jornadas de aprendizagem é o único caminho possível para que equipes desenvolvam as habilidades do agora. “Investir em capacitação é não só uma certeza de retorno financeiro como também uma possibilidade de ver a inovação tão desejada acontecer de fato. E para isso não tem um momento ideal. Podemos falar, claro, em algumas circunstâncias mais apropriadas — como disponibilidade de recursos financeiros para educação — ou até em um certo grau de amadurecimento e abertura da empresa para temas relevantes que precisam ser desenvolvidos, mas a verdade é que não podemos continuar cobrando do profissional de hoje algo que ele não foi ensinado. E é aí que o universo corporativo tem um papel quase que social de formar esse novo profissional. Sem deixar para amanhã, sem esperar condições perfeitas para fazer essa transformação acontecer”, explica. 

O futuro não espera e quem fomentar reflexões alinhadas aos valores contemporâneos entre os seus sairá muitíssimo à frente. E o melhor é que apostar nas UCs é uma equação ganha-ganha: a empresa ajuda a preparar pessoas para o mundo e, em contrapartida, mais felizes, os times passam a olhar para o mesmo horizonte da empresa. Parece promissor, não parece? 🙂