Economia circular: uma nova forma de encarar o consumo (e a produtividade)

Extrair, transformar e descartar. Temos uma relação linear com os produtos que fazemos e consumimos, mas você já parou para pensar como adotamos um mindset tão diferente do que é adotado pela natureza e, até mesmo, por outras relações que temos na nossa vida? Essa é a provocação da Economia Circular, conceito que se baseia nos ciclos biológicos para pensar em formas de produção de capital que sejam, tal como o nome diz, cíclicos. A partir dessa lógica, em vez de materiais já manufaturados serem descartados após o uso, passariam por uma etapa de redesign que os levaria, novamente, para a cadeia de produção. 

Mas como absorver isso, de fato, no dia a dia da empresa? Com o Impact, a SPUTNiK ajuda a reprogramar o olhar sobre nossas relações com o que produzimos, consumimos e descartamos. A sustentabilidade assume o fio condutor da nossa trilha de atividades, e, ao final do curso, os alunos são capazes de identificá-la como um valor competitivo estratégico primordial para a inteligência de negócios. 

Agora, vamos entender mais a Economia Circular e por que ela é uma tendência que deve ser aplicada urgentemente. 

Economia Circular, um processo de ponta a ponta 

Embora esteja ganhando mais adeptos agora, essa prática não é recente, aparecendo pela primeira vez após a Segunda Guerra Mundial, quando já surgem estudos sobre os sistemas não lineares encontrados na biologia e suas possíveis interseções com o mundo tecnológico que estava começando a ser desenhado. Veremos a primeira aparição em estudos isolados da década de 1970, na Europa, até que, finalmente, em 1989, ele se popularizou com a publicação de um artigo dos economistas e ambientalistas britânicos David W. Pearce e R. Kerry Turner. 

A animação a seguir sintetiza, de forma bem didática, o ponto que levantamos anteriormente, ao demonstrar como a economia circular permite que os “produtos de hoje sejam transformados em recursos para o amanhã”, tal como contam.  

A Economia Circular se apresenta como uma resposta imediata aos problemas causados pela extração demasiada de recursos naturais. O modelo linear econômico contribui por agravar inúmeros problemas que temos com a natureza, além de causar um dispendioso gasto energético que também acarreta em despesas onerosas para a produção econômica. Segundo dados da consultoria McKinsey, há uma estimativa de que a mudança definitiva para um capitalismo baseado na economia circular acarretaria em $1 trilhão para a economia global até 2025, criando 100 mil novos empregos nos próximos cinco anos. E só o setor industrial, segundo a mesma pesquisa, economizaria $630 trilhões, anualmente, ao reduzir custos para matérias-primas. 

No Brasil, a Economia Circular já é uma realidade. Segundo uma pesquisa recente do Confederação Nacional das Indústrias(CNI), 76% do setor industrial é adepto de práticas cíclicas. 

CEO da MaterialLab, consultoria de inovação ambiental, Carol Piccin já ajudou empresas de diversos nichos a implementarem práticas de economia circular. Ela, inclusive, foi entrevistada na estreia de nosso podcast, que teve como tema a sustentabilidade nos dias atuais. Confira aqui o bate-papo completo. Para ela, o conceito não é mais uma novidade: ou as empresas passam a enxergá-lo como um fator de sobrevivência de negócios, ou ficarão para trás, uma vez que a responsabilidade ambiental passa a ser cobrada pelos consumidores, enquanto que o mercado, cada vez mais, passa a reconhecê-la como uma valiosa vantagem competitiva.

“Com os meus clientes, eu sempre parto da perspectiva do agora, até mesmo para enfatizar que as empresas que não estão investindo na economia circular estão ficando para trás, porque estão perdendo oportunidades de economizar dinheiro, fazer parcerias com outras empresas, e de gerar novos valores ao seu produto. Afinal,quando você descarta uma matéria-prima ou produto, você está realizando um descarte que,na minha percepção, significa descredibilizar, tornar algo em periférico e sem valor, tanto do ponto-de-vista monetário quanto de uso.”

Como começar o dia seguinte 

Na Economia Circular, temos diversos atores envolvidos e que fogem da lógica de sistemas econômicos usuais. A começar, é muito forte a presença do consumidor, uma vez que estamos lidando, quase sempre, com a reutilização de produtos que já foram comprados mas que, em vez de serem descartados, serão redesenhados em novas manufaturas — seja para a própria empresa, seja para parceiros ou stakeholders. Também temos os seguintes pilares que estruturam o conceito: 

  • Eliminação de resíduos e de poluição;
  • Produtos e materiais permanecem em ciclos de uso, ou seja, não passam pela etapa do descarte pois estarão, sempre, em processo de redesign;
  • Regeneração de sistemas, econômicos, e naturais. 

Para a aplicação da Economia Circular no nosso dia a dia, no entanto, como podemos começar? Selecionamos algumas questões que devem ser levadas em conta durante o planejamento:

1. Seja estratégico na escolha de stakeholders

Para a Economia Circular dar certo, é preciso avaliar todos os agentes que farão parte da equação de forma muito minuciosa. Isso porque, entre as críticas que são feitas à vertente, menciona-se sua dificuldade para sair do papel — já que há questões que podem sair mais caro ao final do processo, como a logística. No entanto, basta considerar os parceiros que, por se beneficiarem diretamente, estariam dispostos a assumir a frente de etapas que sua empresa não poderia onerar. Conhece alguma forma de reutilizar componentes recicláveis dos seus produtos? Que tal uma parceria, por exemplo, com cooperativas de reciclagem ou com indústrias que precisariam da matéria-prima para seus produtos e, portanto, estariam dispostas a fazer a sua coleta na casa dos consumidores? 

Como exemplo marcante, Piccin menciona a parceria desenvolvida com os Filtros Europa, empresa especializada em filtragem de água para uso doméstico. Se antes havia uma grande dificuldade em planejar o descarte das câmaras de filtragem contidas nos produtos (uma mistura de grãos de carvão, quartzo e dolomita, que juntos fazem a limpeza da água), a equipe do MaterialLab conseguiu desenvolver, com uma empresa de cimento, placas cimentadas com os resíduos do componente do filtro, que passaram a ser vendidas para a produção de azulejos que, inclusive, também revestiram as lojas do próprio Filtros Europa. “Aqui, tivemos ganhos econômicos, ambientais, estratégicos e até de reputação, já que o consumidor, ao ficar sabendo que até mesmo os grãos que filtram a água são reutilizados, passa a valorizar a marca como uma aliada do meio ambiente. Além disso, resolvemos o problema da logística, já que é a própria assistência técnica que busca essas câmaras na casa do consumidor, quando vai atendê-lo para uma troca usual do filtro”, conclui Carol. 

2. Pense em como o consumidor também protagonizará o movimento

A Economia Circular parte do princípio do resgate de produtos que, de outra forma, seriam descartados e se transformariam em lixo eletrônico. Mas como envolver o consumidor neste processo? A boa notícia é que estamos vivendo uma fase de grande conscientização ambiental, em que parte da sociedade tem desenvolvido uma atitude mais crítica em relação às marcas e como elas contribuem ou não para o meio ambiente.  Dessa forma, analise os pontos de contato que a empresa possui com o consumidor, de modo que a coleta do produto não seja uma tarefa que exija trabalho por parte do usuário e que, envolvido em diversas tarefas, acabará não se envolvendo com o processo. No caso do Filtro Europa, por exemplo, o consumidor descartava a câmara e entregava para a assistência técnica no ato da troca dos filtros, um processo padrão que já existia no relacionamento entre marca e usuário. 

3. A inovação como resíduo do processo 

A Economia Circular é uma ode a repensar os gastos materiais e energéticos dos modelos atuais de produção. Ok, mas e o que ela gera de inovação? Só a partir da sua proposta de criar novos produtos a partir de materiais já manufaturados, encontramos um olhar novo para diversos modelos de negócio, mas podemos considerar diversas possibilidades de reinventar o mercado, só a partir da aplicação das diversas etapas da Economia Circular.  É o caso de um trabalho de logística reversa, em que a fonte energética do transporte é elétrica ou de qualquer fonte renovável. Ou as metodologias ágeis que serão impulsionadas, a partir da necessidade de um retorno rápido dos produtos, para que sejam redesenhados em novos serviços. São infinitas as possibilidades mas, antes de se jogar na implementação desse modelo econômico, pense de que forma ela gerar soluções inovadoras para diversas questões da empresa. Esse processo de pivotagem pode gerar, até mesmo, insights para a resolução de problemas que, a princípio, sequer estavam relacionados à prática da Economia Circular dentro do seu contexto de negócio. 

Em um mundo cada vez mais conectado em redes e outras estruturas não-convencionais, está na hora de abandonarmos esse olhar tradicional sequencial. Esse é o maior legado da Economia Circular: ao colocar a sustentabilidade no centro do seu modus operandi, acaba por levantar diversos ensinamentos sobre produtividade e eficiência que não são válidos apenas para o consumo e descarte dos materiais ao nosso alcance, mas todos os processos criativos e laborais que fazem parte da nossa vida. Portanto fica a dúvida — e o chamado —:  o que está esperando para entrar nessa roda também?