Quando tudo pede um pouco mais de calma

“Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

A vida não para”

Lenine

Tivemos uma longa (e profunda) jornada até aqui. Mas, afinal, que aprendemos sobre paciência? Começamos fazendo um convite inesperado para você – e para nós mesmos – nos desconectarmos da loucura do seu ambiente de trabalho, parar um pouco e respirar. Bem fundo. Porque quando a gente para, passa a escutar o que o nosso corpo tem a dizer. Em meio ao caos, ele sussurra, pede socorro, mas na maioria das vezes, deixamos nosso corpo no vácuo. Não damos ouvidos justamente porque estamos muito ocupados, correndo, uns de nós até se descabelando. E todos nós nos vemos, no final do dia, tão impacientes que chega a dar medo. Você se pega se irritando com coisa pequena, aumentando o tom de voz para conversar com o colega da mesa ao lado, levando para casa os problemas não solucionados, a raiva contida, o grito que ficou contido. Ou que escapou mais alto do que deveria ser.

Quando começamos, trouxemos um questionamento: você acredita que ser forçado a esperar torna as pessoas mais bem-sucedidas? Até para nós (confessamos!) foi difícil de aceitar. Porque, hoje, esperar por algo é tão difícil, que optamos por tentar antecipar o futuro para chegar mais rápido ao sucesso, mas esquecemos que temos muito o que aprender com o passado, que não está tão distante assim. O imediatismo do mundo nos obriga a correr, enquanto a melhor solução seria justamente o contrário: parar.

Pensar em paciência dentro do universo corporativo é como colocar a linha no buraco da agulha. Pode parecer impossível, mas no final sempre dá certo e a gente consegue costurar com calma uma situação tomada pelo stress. É verdade que a paciência tem limite, mas isso não significa que ela se esgota facilmente. menos, não deveria.

Será que temos tempo a perder?

Ninguém nunca quer esperar, muito menos perder. A ideia da perda é dolorosa, e está muito relacionada à vulnerabilidade. Um profissional que se sente vulnerável coloca em xeque a sua performance, e todo o time pode ser afetado. Mas e se esse profissional decide parar e recobrar o autocontrole para deixar a irritação de lado e abusar da calma para tomar as melhores decisões? Sim, quando estamos impacientes, uma simples conversa vira discussão, e um argumento se transforma numa guerra sem fim e, mais do que isso, sem vencedores. A paciência tem tudo para dar match com o ambiente de trabalho porque flerta com a boa convivência, com a harmonia entre os colaboradores, com diálogos saudáveis e, com certeza, com projetos bem-sucedidos. E foi investigando sobre ser paciente no universo corporativo que descobrimos que ninguém nasce paciente. Desde que chegamos a esse mundo, choramos para conseguir comida, atenção, até para ir ao banheiro. Mas a gente aprende a esperar, treina a calma e conquista o autocontrole.

E não adianta convencer a nós mesmos de que todo mundo está correndo para ser feliz, para ter sucesso, para construir uma família, para ficar em paz. Vai chegar um momento, como esse tempo desconhecido em que estamos vivendo agora, que a única alternativa – e mais sábia – é simplesmente esperar. Porque o que está por vir pode ser infinitamente melhor do que você imagina.

“Enquanto todo mundo espera a cura do mal

E a loucura finge que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência”

Nesse caminho que trilhamos juntos em busca da paciência, entendemos que levantar a bandeira branca em meio ao conflito no trabalho é escolher refletir e agir antes da bomba estourar. Mesmo sabendo que o conflito faz parte da natureza humana, e que cada um lida com ele de uma forma diferente, você vai se surpreender ao ver que, descobrir o código para desativar uma explosão de nervos, é libertador. E a única guerra que vale a pena declarar é contra a falta de paciência, abrindo espaço para a conciliação no lugar da divergência, para a solução ao invés da reação, para o equilíbrio contra a desavença, para a colaboração ao invés da discussão, e, claro, para o autocontrole, que faz com que essa combinação seja produtiva e efetiva de verdade.

Quando a gente encontra a calma, não há comunicação que seja violenta, não tem palavra que desperte o rancor. Quando trabalhamos a nossa paciência e a colocamos em prática dentro e fora do trabalho, o senso de comunidade cresce, e o resultado só pode ser a conexão. E num ambiente onde as pessoas se sentem conectadas e engajadas, não há espaço para conflitos ou desrespeito.

Aprendemos, ainda, que quando o corpo está em equilíbrio com a nossa mente, a gente consegue encontrar a calma em meio ao caos. A gente consegue se transformar para (re)encontrar a paz que tanto queremos. Saímos de um ambiente de tensão para caminhar em nosso próprio pace, num ritmo tangível e possível, porque sabemos que o destino que nos espera vai, pelo menos, parecer mais propício à nossa própria evolução, enquanto damos a mão para o outro que segue lado a lado. Você passa a desafiar os limites da sua paciência porque sabe que não pode invadir o limite do outro nessa troca diária, onde o objetivo é seguir sem se perturbar para conseguir acolher. Sem se condicionar, sem se cobrar tanto, apenas aceitando que sim, somos todos seres em evolução, e para olhar para o lado é preciso, antes, olhar para dentro. E florescer.

“O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós”

O mundo nos cobra a todo momento. Cobra, até, soluções para o inesperado em uma pandemia que nos tirou a liberdade, algo que nos é tão precioso. Mas o que o mundo espera de nós é a sabedoria para refletir antes de agir, sem atropelos nem desassossego. Então experimente, de novo, parar. E voltar um pouco para a época em que você, criança, aprendeu muito sobre o que é paciência com sua mãe (pai ou cuidador). E foi trazendo, pela sua natureza, esses ensinamentos para a vida adulta, em todos os vieses. Foi doloroso sim, desde o início, aprender a ser paciente, mas mesmo sem perceber, você já vem vivendo esse processo há muito tempo. Se descabela, não tem como mentir, mas recobra os ânimos e recomeça quando identifica o que te perturba. E se você olhar para isso sob um novo ponto de vista, pode até entender que sair da zona de conforto é o primeiro passo para tudo mudar de lugar.

Nessa rica jornada, vimos que a paciência é uma das virtudes que a empatia desperta em cada um de nós, e quando a gente procura compreender os próprios limites da calma, ficamos tranquilos em fazer as próximas escolhas porque estamos em equilíbrio por dentro e do lado de fora. Vale a pena relembrar que os gatilhos sempre vão existir, algo sempre vai tentar tirar a sua paciência, mas também sempre vai existir uma estratégia – convencional ou diferentona – para se manter no lugar de tranquilidade. Mesmo que isso seja, simplesmente, não fazer nada além de respirar. Bem fundo.

Quando você se permite viver um dia de cada vez, tudo ao seu passo, devagar e constante, você passa a se perguntar menos e avistar o começo das respostas. Tudo muda, o tempo todo, numa velocidade que nem sempre damos conta de acompanhar. Ao mesmo tempo em que estamos vivendo a vida lá fora, somos obrigados a nos trancafiar dentro de casa para lidar com algo que não fazemos a mínima ideia de como vencer. Passamos, então, a viver uma nova ansiedade, diferente de tudo o que conhecíamos até algumas poucas semanas atrás. Como ficar imune a tudo isso esperando que tudo volte ao normal? Desculpa, mas ainda não sabemos a resposta certa, ela ainda está perdida por aí esperando para ser encontrada.

Em todas as nossas pesquisas, leituras e divagações, o que podemos te dizer é que, ainda, sabemos muito pouco sobre a paciência. Que existem vários aspectos da neurociência por trás disso e, dentro do seu cérebro, têm milhares de estímulos que conversam – ou não! – entre si, e te levam por caminhos ensolarados e sombrios. E nesse balanço, nossa paciência vai sendo moldada, entre contornos, para que possamos lidar com com as situações das mais inesperadas possíveis. Em meio a tudo isso, esperar se torna um hábito, você toma gosto por ser calmo e, assim, tomar as melhores decisões baseadas no seu autocontrole. Você aprende que esperar é um mal bem necessário, é positivo, motivador. E lindo. Exatamente porque te faz estar presente.

Vivemos em uma turbulência cotidiana. Pirar se apresenta como a primeira opção, mas é uma escolha só sua se entregar à loucura. Às vezes temos a sensação de que o futuro chegou rápido demais, mas a gente não fica o tempo todo tentando desvendar o que vai acontecer amanhã?

É aí que, mais uma vez, fazemos esse convite: pare e reflita. Mas pare hoje, pare enquanto lê esse texto, e respire. Depois, se dê ao luxo de não ficar imaginando o amanhã, mas a rever o que você aprendeu ontem, ano passado, 20 anos atrás. O passado, independente se foi bom ou ruim (e tudo depende da perspectiva), é valioso. E o agora não poderia ter um nome mais significativo: presente, uma dádiva, uma chance pronta para ser aproveitada, vivida, experimentada. É hora de deixarmos de ser imediatistas, isso vai na contramão da espera. Assim como você, o futuro pode esperar. E a paciência é exatamente a chave que você precisa para chegar lá. 

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara”

Baixe aqui o e-book com o estudo completo sobre Paciência.

Paciência: 5 dicas de mães para que você aplique na sua vida profissional (e não perca as estribeiras)

Nota da editora: Um dos achados do nosso estudo em profundidade foi, justamente, sobre gênero. As mulheres são educadas e sensibilizadas para serem mais pacientes ao longo da vida. Isso, claro, vem da estruturalização do patriarcado que vê — erroneamente, diga-se de passagem — na resiliência e na tranquilidade uma pessoa mais submissa. Descobrimos, nos insights trazidos pela pesquisadora Andréia Rocha, que paciência é muito mais sobre ação do que passividade. Engana-se quem vê no ser paciente uma pessoa subalterna. Mesmo assim, nos valemos dessa nota para reafirmar que, de forma alguma, endossamos o pensamento de que a mulher é paciente por natureza ou precisa desenvolver a paciência por cultura. A pauta surgiu de dois comentários muito particulares em uma postagem que fizemos no Instagram da SPUTNiK, comunicando que lançaríamos conteúdos sobre a temática. Ambos vindos de mães e ambos compartilhando seus aprendizados com a maternidade e o desenvolvimento e nutrição de tal virtude. Esclarecimentos feitos, esperamos que façam uma boa leitura 🙂 

* * *

“Minha mandíbula aperta enquanto os vídeos do Hulu carregam. Eu bufo quando fico presa na fila lenta da cafeteria. Carros lentos na pista rápida me levam a uma onda de ódio. Tenho vergonha da rapidez com que perco a calma por causa dessas pequenas coisas. Sempre desejei ser uma pessoa mais paciente, mas é impressionante saber por onde começar.

Anna Goldfarb

Se você se identificou com o depoimento, saiba que mesmo que você não seja uma pessoa particularmente paciente hoje, ainda há esperança de ser uma pessoa mais paciente amanhã. Portanto, se com frequência você se sente exasperado mais do que gostaria, aqui estão algumas maneiras de manter esses impulsos irritantes sob controle compartilhadas com quem manja muito do assunto: Alice Motta e Bianca Dallegrave

Como ser mãe (pai, amiga, qualquer parente!) da paciência 

Não tem como negar: muito (ou quase tudo) daquilo que sabemos hoje, aprendemos com nossos pais ou cuidadores. A gente vai crescendo e vendo o quanto trazemos da nossa infância para a vida adulta e, parando para pensar nisso, você vai concordar com o que foi dito bem ali no início. Todo mundo aprende algo cotidianamente, e aprender a ser paciente pode ser doloroso, mas não é impossível. Em meio ao caos cotidiano, quem consegue ter calma para respirar antes de falar ou agir pode se sentir privilegiado — e quem não consegue pode ficar calmo porque tudo é aprendizado, vivência, experiência. É meio clichê parecer clichê, mas a gente realmente aprende muito quando passa a viver um dia de cada vez.

No universo corporativo, a paciência é o troféu que todos querem erguer. Só que, muitas vezes, não se sabe nem por onde começar a ser mais tranquilo e generoso, a estar aberto a ouvir antes de falar — o que ajuda, certamente, a evitar discussões e conflitos desnecessários. Felizmente, a paciência é um traço das nossa personalidade passível de mudanças, e isso significa que você só precisa aprender como manter seus impulsos sob controle para não explodir por qualquer que seja o motivo.

Voltando à nossa infância, muita gente é capaz de lembrar que fez seus cuidadores se descabelarem milhares de vezes, mas dá pra lembrar também que, na maioria das vezes, eles recobravam a calma e nos levavam juntos nessa toada, apaziguando os ânimos para tudo voltar ao normal. 

Alice é mãe do Tom (dois anos) e Head de Operações; Bianca tem o Enzo (cinco anos) e o Thomas (dois anos) e trabalha em um laboratório de inovação. As duas tiveram diversas experiências antes dos filhos chegarem para estarem, hoje, num lugar em que podem dizer que, sim, é possível se exercitar para ser mais paciente. Bianca diz que antes do nascimento da prole não tinha tanta consciência sobre a necessidade de respeitar o tempo de cada pessoa. Já Alice conta que, depois de Tom, teve de fazer uma mudança fundamental de prioridades, o que aumentou a sua paciência.

Com essas duas histórias inspiradoras, desafiamos você a parar pensar: como manter o controle, motivado pelo que essas mães nos ensinam? Reunimos algumas dicas que vão ajudar você ser mais paciente no trabalho, tal qual Alice e Bianca, que aprenderam que a paciência, um atributo essencial para a maternidade, tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nossa visão do outro. Vem de papel e caneta na mão 🙂 

Qual gatilho desperta sua ira?

Comece descobrindo o que ativa a sua falta de paciência para entender como pode assumir o controle das situações. É engraçado que tanto Alice quanto Bianca trouxeram o mesmo ponto de vista por meio da experiência simples das crianças em calçar sapatos, o que exige muita paciência dos dois lados. “Se você observar uma criança tentando amarrar o sapato nas primeiras vezes, vai se dar conta o quanto nós adultos temos a ansiedade de interferir nesse momento que é tão importante para que ela possa se desenvolver. Quando a gente tem essa relação com nossos filhos, isso acontece a todo instante nas pequenas tarefas do dia a dia”, Bianca relata. Nesse exemplo, você pode substituir o filho pelo colega de trabalho para ver quais atitudes simples despertam o desequilíbrio. E foi o que Alice percebeu: “Você tem ideia de quanto tempo uma criança de dois anos demora para calçar um chinelo sozinha? E quando o Uber está esperando, sabia que demora mais? Com meu filho tenho uma condição básica e imutável que me obriga a ter paciência: ele tem dois anos. Ele está aprendendo tudo, ele precisa desse tempo porque botar o chinelo é algo novo para ele. Acho que é justamente isso que refrescou meu olhar para o resto: será que essa pessoa está demorando para fazer esse relatório porque ela está com dificuldades? Será que precisa de ajuda? Isso me faz repensar a irritação sempre”.

O que foge à regra é também um bom exemplo de gatilho explosivo, e um combinado não cumprido se torna a faísca para o conflito começar. Bianca diz que isso a faz perder a calma, e que tentar preservar os combinados é algo que ajuda a não alimentar desconfortos pessoais que podem impactar as relações (em casa e no trabalho). 

Quais os riscos de explodir?

Quando você perde a paciência, é como se um alarme fosse disparado no seu cérebro para que a sua resposta seja qualquer outra que não a calma. A chave é saber como você pode interromper o ciclo vicioso e explosivo para conseguir avaliar os acontecimentos e ver que você pode agir diferente cedendo lugar às decisões certeiras. Os gatilhos sempre vão existir — e não pense que as estratégias para se manter no lugar de tranquilidade precisam ser convencionais —: vale tudo, inclusive não fazer nada além de respirar bem fundo. 

“Além de preservar os combinados, em alguns casos eu canto. Quando o Thomas faz alguma birra, em vez de eu ficar tentando conversar sobre a frustração dele, tento desviar a atenção para outra coisa, então às vezes eu canto, outras mudo de assunto, proponho uma brincadeira”, revela Bianca sobre essa habilidade que desenvolveu na maternidade (mas que pode ser levada para qualquer situação). No maternar de Alice, seu filho a “ensinou a desenvolver uma certa generosidade com o tempo”, o que ela entende como paciência. “Quando você tem um bebê, precisa compreender que o tempo daquele serzinho não respeita o que nós instituímos como medidas, eles demandam nossa atenção a qualquer momento e temos que estar bem e sã para atendê-lo. Isso certamente torna mais fácil a ideia de que você pode fazer as coisas sem pressa e que outras funções e pessoas podem esperar você acabar o que está fazendo com seu bebê para resolver suas demais funções”. Tente substituir o bebê por uma tarefa no trabalho e você vai pensar duas vezes antes de cobrar seu colaborador sobre algo que ele não teve tempo suficiente para terminar.

Dá para começar de novo?

Uma atitude bem infalível é olhar para a situação inteira, como se estivéssemos do lado de fora, para conseguir enxergá-la sob um ponto de vista diferente e a partir disso conseguir focar, por exemplo, não no que nos irrita, mas no que fazemos que irrita o outro. Isso pode ajudar você a encarar tudo de uma forma mais ampla e equilibrada. É preciso incluir a situação irritante dentro de um contexto maior para conectá-la com o que vai levá-lo ou levá-la a um resultado libertador. “Acho que antes eu era mais impaciente com os outros e comigo mesma, porém, com a maternidade, esse contexto muda radicalmente já que você não tem mais controle nenhum sobre o tempo do desenvolvimento dos seus filhos e o seu tempo está, automaticamente, atrelado a isso. Então não adianta ser impaciente, tem de saber ponderar e equilibrar. Às vezes, cedemos tanto para o outro que também acabamos desequilibrando o nosso próprio bem-estar interno, então tenho buscado compreender melhor esses limites para ficar mais tranquila com as minhas escolhas”, explica Bianca. 

Como treinar a paciência?

Para ser o bom profissional que é hoje, você teve experiências anteriores que puderam treinar você para o mercado de trabalho. O resultado desse treinamento foi imediato? Com certeza não. E com a paciência não seria diferente. Não é possível se tornar mais paciente da noite para o dia. É um treinamento diário até chegar ao dia em que você vai poder dizer que, sim, é uma pessoa que sabe encarar boa parte das situações com tranquilidade. Quando você é mãe, a todo momento é preciso exercitar o olhar porque precisa aprender e ensinar ao mesmo tempo — assim como um líder dentro da empresa, que não pode deixar a ansiedade tomar conta da situação. Tom ensinou a Alice que é preciso priorizar, que é necessário “aceitar que certas coisas podem demorar um pouco mais e ninguém vai morrer por isso, que é importante reconhecer o ritmo de cada pessoa em vez de impor seu ritmo a todo mundo”. Ao mesmo tempo, ela ensina a Tom que é fundamental ter paciência, respeitar o tempo das outras pessoas quando ele quer algo, entender que as necessidades dele não são a coisa mais importante a todo instante. “Acho que a paciência é uma das pontas do ensinamentos sobre empatia”, completa. 

É possível ser realista?

Agora, você está a poucos passos de dizer que é paciente porque sabe o que desperta a sua raiva e entende como controlar as situações (e como se controlar!). O aprendizado é assim mesmo: você precisa mudar alguns aspectos da sua rotina, alterar um pouco seu estilo de vida para reduzir o estresse e aumentar a calma. Mas é importante ser realista sobre o que é possível aprender e mudar e o que ainda não dá para mexer. E não tem nada de errado nisso, afinal, criar objetivos intangíveis é o detonador para a impaciência. Estar consciente do que pode ou não pode ser controlado por você é essencial para não ficar “dando murro em ponta de faca”.

Para Bianca, mesmo com os inúmeros aprendizados que a maternidade traz e a própria relação diária com os filhos, nem sempre é fácil levar tudo isso para o trabalho. “Tento com frequência promover um mindset voltado mais para o aprendizado e menos para a frustração do que deu errado — mas que pode dar certo na próxima vez que a gente tentar. Isso acaba trazendo uma nova perspectiva para as empresas, e que eu me identifico muito, que é o ‘antes feito que perfeito’. A busca constante do perfeccionismo tem matado (na maioria dos casos) as possibilidades de inovação, e vejo que essa busca é uma construção que vem da nossa infância. Outro ponto que acredito muito é sobre a organização das prioridades e dos combinados. Se temos isso claro no alinhamento e nas diretrizes centrais da empresa, tudo acaba fluindo de forma mais leve e eficiente”. Para arrematar o pensamento, Bianca levanta, ainda, um importante aspecto que a maternidade fez mudou dentro da vida profissional e pessoal em relação à empatia e acolhimento das vulnerabilidades, sejam as dela, dos filhos ou de quem ela trabalha junto: “Autoconhecer-se e entender quais são os sentimentos ativados de acordo com cada situação é fundamental para construir uma carreira sólida e humana. A maternidade é um grande despertar para tudo isso, pois junto com uma pessoa que nasceu, nasce também uma nova Bianca, agora mãe, e isso tudo altera a forma como vemos e entendemos o mundo e as pessoas”. 

Na experiência da Alice, ser mãe, em um contexto geral, trouxe mais clareza em relação ao lugar do trabalho em sua vida.. “Eu tento ser muito consciente dos meus passos e tento sempre olhar em volta, refletir sobre onde estou. Sempre fui assim. Sabia que a maternidade mudaria drasticamente a minha vida e quis buscar esse novo ponto de vista ativamente, me transformar por ele. De certa forma, acho que isso me fez chegar onde cheguei no meu trabalho e, ao mesmo tempo, conseguir viver a minha maternidade com plenitude, mesmo me dividindo em dois”.

Dicas extras (e valiosas!) das mães para você exercitar a sua paciência

A gente disse que você teria muito a aprender com essas mães sobre paciência, né? Por isso, não poderíamos deixar de fora algumas dicas que Alice e Bianca compartilharam com a gente  para exercitar a calmaria que há dentro de cada um de nós. Você pode, por exemplo, começar fazendo uma meditação logo na primeira hora da manhã como a Bianca faz, e desativar algumas notificações dos aplicativos de celular que tiram sua atenção (uma dica da Alice). O importante é descobrir a sua maneira de relaxar, respirar fundo e aproveitar algum momento do dia para exercitar a paciência. Quer mais? Aqui, ó: 

  • Ler livros longos que não sejam relacionados ao seu trabalho
  • Começar a exercitar um olhar mais atento a tudo, desligando o seu “modo automático” (uma boa tentativa é se comprometer a brincar com uma criança por trinta minutos sem pensar em mais nada, com presença ativa) 
  • Aproveitar momentos em que nada pode ser resolvido, como em uma viagem de avião, para desconectar e simplesmente só esperar chegar ao destino
  • Escutar podcasts com mulheres que falam de suas experiências pessoais e profissionais (muitas são mães também!): Jogo de Damas, Mamilos e É nóia minha
  • Investir em formação pessoal e profissional por meio de cursos, palestras, redes de apoio
  • Curtir seu tempo livre assistindo documentários interessantes: The secret life of babies, O começo da vida e One strange rock

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Corpo e mente a favor da calma: convidamos Gustavo Gitti para dar dicas de como manter a paciência, mesmo em um ambiente de trabalho caótico

Por que alguém em sã consciência toleraria emoções irritantes em vez de fazer qualquer outra coisa? Não é mais fácil explodir — e depois catar as consequências — ou então só ignorar do que ter de nutrir e desenvolver a paciência? Olha, talvez não.

Um estudo intitulado The psychology of patience verificou que, quanto mais uma pessoa está confiante em ganhar algo, mais paciente se torna. Suponhamos, por exemplo, que você esteja passando por um problema, mas acredita que poderá sair dele. A pesquisa mostra que, nesses casos, será mais capaz de tolerá-lo. Já que, então, as emoções são alimentadas por um diálogo interno que se origina em crenças, temos a possibilidade de transformá-lo, garantindo que os estoques de paciência voltem a encher

E dentro do contexto da transformação pessoal em busca da paz que a gente tanto quer, Gustavo Gitti tem muito a compartilhar. Ele é professor de TaKeTiNa (transformação pelo ritmo), coordenador do olugar.org (comunidade online de florescimento humano) e facilitador no Centro de Estudos Budistas Bodisatva – CEBB SP, e bateu um papo bem rico com a gente sobre como ser mais paciente dentro de óticas que fazem sentido não só na área profissional, mas na sua vida como um todo. Vamos juntos expandir nossa capacidade de conquistar a tranquilidade que, na verdade, sempre esteve dentro de cada um de nós? Então vem!

SPUTNiK – O seu trabalho é um verdadeiro convite à transformação em busca de si mesmo e do melhor relacionamento com o outro e com o mundo. O que significa essa transformação quando a gente fala sobre o ambiente de trabalho?

Gustavo Gitti – O grande engano que vejo nas empresas é individualizar problemas coletivos, ou seja, exigir transformação pessoal enquanto sustenta estruturas aprisionantes. A empresa contrata, por exemplo, uma palestra minha sobre felicidade genuína e meditação, mas não dá a tarde livre para as pessoas. Estou lá falando sobre a micro apneia que acontece quando checamos e-mails, sobre a importância de relaxar e respirar livre das tarefas, mas a pessoa está preocupada com o que fará a seguir. 

Você cria um ambiente de tensão e diz: “Relaxe, faça mindfulness!”. Ou seja, a grande mensagem é “Se vira, mude você, nós não vamos mudar”. Gregory Bateson chama esse processo enlouquecedor e traumático de “duplo vínculo”. Se questionadas, as pessoas mais importantes na corporação frequentemente dizem: “Ah, mas todo o mercado funciona nesse ritmo.” Não é verdade: podemos fazer diferente, podemos escolher não reagir e implementar uma nova atmosfera. Há incontáveis exemplos de empresas que experimentaram reduzir o trabalho para 4 dias por semana ou para 6 horas por dia. E a tal da “produtividade” até aumentou

Outro exemplo: a empresa contrata um workshop sobre empatia ou, melhor ainda, sobre compaixão nas relações, enquanto sustenta um ambiente de competição diária por meio de dispositivos de avaliação e recompensa. Nesse caldeirão de competições, cada pessoa agora precisa entender o mundo do outro, não competir, ajudar… Mas se a própria empresa fizesse isso, não precisava de palestra sobre felicidade e nem de workshop de compaixão. O dinheiro poderia ser investido em aumentar os salários, reduzir carga horária e visar um lucro menor, crescendo e produzindo menos, porque não? Por que é um absurdo focar mais na vida do que no capital?

Se a empresa quer mesmo o bem-estar dos funcionários e do mundo ao redor, ela realmente precisa mexer no seu principal negócio, não adornar o problema com eventos e palavras bonitas. Ou seja, se ela produz refrigerante, que sempre faz mal para seres humanos, a maior compaixão seria parar de produzir. Se ela cresce a ponto de destruir rios, idem. E se ela quer mesmo introduzir compaixão, sua diretoria deveria aumentar os salários, no mínimo. Sobre a uberização do trabalho, recomendo o novo filme de Ken Loach – Você não estava aqui – e o livro Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, de Tom Slee. E, para quem se interessa por empresas mais humanas, recomendo três livros: Um coração sem medo, de Thupten Jinpa, A revolução do altruísmo, de Matthieu Ricard, e The mind of the leader, de Rasmus Hougaard.

O que para você representa ser realmente paciente em um mercado de trabalho onde a ansiedade impera e todos estão sempre desesperados para serem bem-sucedidos o mais rápido possível?

A essência da paciência é a não perturbação. Não é bem ficar sustentando uma paciência, pois como diz a expressão popular, “paciência tem limite”. Se você tem paciência, você rapidamente a perde. Um de meus professores, Lama Padma Samten, sempre brinca que a maior paciência é só não ter impaciência, é seguir sem se perturbar. Paciência em tibetano é zopa (existe até um grande professor chamado Lama Zopa Rinpoche). E a essência da paciência, a sua verdadeira natureza, é a não perturbação, a quietude imutável, e ao mesmo tempo aberta aos movimentos incessantes da vida. Em tibetano, imperturbabilidade é mingyur — há também um grande mestre, um de meus professores, que se chama Mingyur Rinpoche. Dele recomendo todos os livros. 

Nós confundimos imperturbabilidade com indiferença, mas isso é um engano. Na verdade, quanto mais irritáveis somos, mais precisamos nos proteger em casulos. Por outro lado, quanto mais imperturbáveis, mais deixamos o mundo nos tocar, como faz a terra, o céu ou o espaço ao nosso redor: seguem imperturbáveis e por isso sempre acolhendo, apoiando se deixando tocar.

O que você faz para trabalhar a sua paciência dentro e fora do seu ambiente de trabalho na sua rotina pessoal? 

A paciência pode começar a ser cultivada por três grandes abordagens: a do equilíbrio, a da sabedoria e da compaixão.

Pelo equilíbrio, você pode começar cultivando relaxamento e estabilidade pela prática de shamatha (“calmo repousar)”, que existe há milênios como um recurso mental em nossa família humana, antes mesmo do Buda surgir. A palavra “meditação” é um tanto problemática. Em tibetano, usa-se gom, que significa apenas uma intimidade ou familiaridade com a mente e com a realidade (com a impermanência, por exemplo). E em sânscrito, usa-se bhavana, que significa apenas cultivo, treino, florescimento de alguma qualidade natural da mente. Há diversos métodos que levam uma capacidade de não reagir e se manter imperturbável, ainda que com a mente aberta e conectada com toda a amplitude de seres e experiências. O objetivo dos métodos de shamatha é aprofundar nossa capacidade de integrar quietude e movimento, sem ficar indiferente (dependente da quietude) e sem ficar desesperado (condicionado pelas condições externas). Normalmente combinamos práticas de estabilidade com práticas de sabedoria, pelas quais ampliamos nossa visão, e de compaixão, quando abrimos o coração e pacificamos as relações. Desse modo, a paciência nasce de modo progressivo e natural.

Além disso, nas abordagens mais ligadas à sabedoria e à compaixão, há uma paciência mais profunda, que significa parar de lutar contra a natureza impermanente, não resolvível e insubstancial dos fenômenos. A verdadeira paciência nasce da compreensão de que você nunca vai de fato ser bem-sucedido na trajetória pessoal que você chama de “carreira”. Você nunca, de fato, vai virar alguém, pois sua natureza é livre. Isso é assustador! Nós queremos enfim ser alguém, sermos amados por alguém, termos algo para agarrar… Queremos uma narrativa e um propósito pessoal. Pelo poder da interdependência, nossa vida nunca consegue ter sentido sozinha, apenas na conexão com as outras vidas. Uma mente autocentrada está tentando algo impossível, então sempre sofre. 

A maior paciência vem de se abrir para essa realidade além das nossas estratégias de sucesso pessoal e além de nossas narrativas, conceitos, teorias, opiniões e pensamentos sobre a vida. É uma paciência de começar a relaxar na incerteza, sabendo que não há como se agarrar. Eis a diferença entre uma pessoa que se diz em um momento de transição, esperando para relaxar num novo platô, e a pessoa que entendeu que sempre estamos em transição, que a vida é isso e não há platô seguro possível. A primeira pessoa sempre vai perder a paciência, pois sua visão não dá conta do dinamismo da vida. E a segunda pessoa começa a não se impacientar tanto, ao relaxar no próprio desconforto de não saber direito onde está, quem é, quem são os outros e o que está acontecendo. Ela é mais flexível, erra, se frustra e não tenta logo escapar desse lugar de não-saber. É essa abertura a fonte da verdadeira segurança: uma comunicação constante com o dinamismo e com a complexidade das situações.

Sobre isso, recomendo 3 podcasts que gravei recentemente: Como viver uma vida com sentido, Coemergência: existe algo lá fora e Vacuidade: a natureza aberta da realidade.

Sobre o que eu pratico, é isso: métodos de shamatha, sabedoria e compaixão que aprendi com Lama Padma Samten, Lama Alan Wallace e Mingyur Rinpoche, entre outros grandes professores com quem tive algum contato nos últimos 15-20 anos. Não me considero um ser paciente. Rapidamente me irrito, pergunte para a Isabella Ianelli, com quem sou casado. Ela não só vê minha impaciência, como sabe a origem da paciência, afinal é formada no programa Cultivating Emotional Balance e oferece online o curso das emoções

Quais gatilhos desencadeiam a perda da calma que precisam mais da nossa atenção?

Essa ideia de “gatilho” é muito perigosa. Pode dar a entender que há algo realmente perturbador, sendo que é nossa mente que se perturba. Parece mais inteligente tentar se proteger descobrindo o que é realmente perturbador e então criando um casulo de proteção, um “safe space”, como se encontra muito na cultura americana. Mas o verdadeiro espaço seguro é a natureza livre da nossa mente. Essa abordagem do “gatilho” é desempoderadora: ela dá o poder para que muitas coisas nos arrastem. Ela nos tira a curiosidade que leva à descoberta de nossa bondade fundamental, que é nossa maior força.

Claro, em situações de muita fragilidade, a melhor coisa é se afastar daquilo que parece ser a causa do sofrimento. Não vamos chegar em uma pessoa que foi vítima de violência e dizer que ela está causando o sofrimento. Não, pelo contrário, nesse momento é muito benéfico para a pessoa não se culpar e entender que ela não fez nada que causou o sofrimento, que a violência foi do outro. Como vemos em grupos de apoio, precisamos lutar para que essa violência acabe! Porém, assim que a pessoa melhora, se ela realmente quiser liberar as causas do sofrimento pela raiz, começando com pequenos sofrimentos, pequenas irritações, a melhor visão é entender que é a sua mente que se perturba desnecessariamente, que a causa da perturbação não é bem externa. Mesmo quando há algo imensamente errado na sociedade, não ajuda se tentarmos mudar o mundo com uma mente perturbada. Chegamos fracos e reativos diante dos problemas.

Descobrir que a causa do sofrimento é interna é empoderador! Isso não significa dizer que a causa é individual, mas que é sustentada também pela nossa mente por meio da cultura. Não é uma abordagem passiva, mas muito vigorosa, enérgica, firme. Paramos de apontar dedos e podemos transformar nossa mente, nossa visão, nossa atitude, nossas relações. Essa é a melhor posição para transformar os sofrimentos coletivos e construir um outro mundo. Qual mente é mais poderosa para acatar as bases da desigualdade social, por exemplo? Uma mente reativa ou uma mente estável? Essa transformação envolve parar de lutar com o nosso sofrimento. Envolve usá-lo como combustível: entender que ele é coletivo, gerar compaixão a partir dele, sabedoria, estabilidade, relaxamento, energia para ações transformadoras em todas as direções. Abre-se todo um caminho a partir dessa relação mais lúcida com nossa revolta diante de tantos problemas sociais.

Todo mundo quer ser feliz, mas como a gente começa essa jornada a partir da dor de não conseguir esperar por nada, de querer pular etapas para conquistar as coisas mais rápido?

A gente pode começar se cansando. Se você é privilegiado, você já deve ter tentado de tudo: livros, cursos isolados, estados alterados, sexo, viagens… Você pode ter melhorado, mas está realmente contente com uma versão atualizada de suas confusões e aflições? Veja como todas as felicidades que você teve foram condicionadas. O namoro que mais te fazia feliz foi o que mais te deixou sem conseguir dormir, respirar, comer por semanas ou meses. E assim por diante. Enquanto não transformarmos nossa mente, vamos sempre ficar autocentrados, reativos, sérios dentro de bolhas e identidades posadas. Nunca de fato encontramos a felicidade porque estamos buscando no mundo impermanente das aparências. Uma mente feliz não é uma mente que se fixa em experiências específicas, mas uma mente livre, capaz de soltar o apego e a aversão a qualquer experiência. E estamos buscando de modo individual. Felicidade é uma mente aberta, com compaixão, sabedoria e estabilidade naturais. É por isso que ela implica na felicidade dos outros ao nosso redor. Não podemos descansar enquanto houver sofrimento do outro lado da rua.

Esse cansaço diante das tentativas autocentradas de ser feliz vai nos levar a uma maturidade. Vamos começar a ver o limite de entender, ler, ouvir palestras, saber explicar, fazer terapia… E vamos começar a querer algo mais radical: trabalhar diretamente com nossa mente usando métodos em primeira pessoa. Pode ser então que nosso eurocentrismo se evidencie como uma ignorância e comecemos a nos interessar pelos grandes sábios de nossa família humana, em vez de ouvir empresários que tiveram apenas algum sucesso e hoje falam sobre felicidade e sentido da vida, como se tivessem alguma sabedoria. 

O que as pessoas podem fazer fora do ambiente corporativo para conseguir trabalhar a paciência que precisam no dia a dia de trabalho?

Há uma prática bem simples para ampliar sua paciência a partir do amor e da compaixão. Ambas começam quando reconhecemos uma paciência natural surgindo em momentos cotidianos. Para reconhecer a compaixão, observe como você nunca desiste ou joga no lixo a louça suja. Você a limpa, mesmo que demore. Por quê? Ao mesmo tempo em que lida com a sujeira, você sabe que o vidro, a cerâmica, a pedra sabão, o aço inox não estão verdadeiramente sujos. Há algo que segue limpo mesmo enquanto está sujo. A sujeira não chegou a se misturar com a porcelana! É apenas por isso que podemos limpá-la. Do mesmo modo, a compaixão vê o sofrimento das aflições, enganos e ações negativas sem congelar os seres. Eis a origem da paciência: você trabalha, leve o tempo que levar, para que cada ser possa se liberar do que o aprisiona, sempre sabendo que todo sofrimento é atravessável, trabalhável, liberável. Isso é a compaixão.

Para reconhecer o amor, observe uma mãe com um bebê: na maioria das vezes, ela manifesta uma natural paciência pois sente que ele é um ser em processo — e todos nós somos seres em formação. Uma professora de música vê o aluno mal conseguindo tocar e, ainda assim, reserva um teatro inteiro para a apresentação de fim de ano. Por que ela faz isso? Porque ela vê o potencial de florescimento e imagina, sonha, adivinha no que o outro vai se tornar. Isso é amor: desejar que o outro seja feliz e manifeste as causas da felicidade, agindo como apoio para que isso se realize. Quanto mais amor e compaixão você manifestar, mais natural será sua paciência.

Quando você estiver com raiva ou encontrar alguém com raiva, uma prática tradicional e bem simples para se conectar com o verdadeiro movimento dos seres é pensar: assim como eu, os seres sentem raiva; assim como eu, os seres ficam desconfortáveis com a raiva e desejam transformá-la; assim como eu, a natureza mais profunda de cada ser é bondosa, então eles podem ser felizes. Desse modo, você vai ampliar seu desejo autocentrado de ser feliz para um desejo altruísta de que todos os seres sejam felizes. Se você abrir esse olhar, isso é amor, um dos caminhos mais naturais para a paciência. 

Pra terminar, é mesmo humanamente possível manter a calma em meio ao caos corporativo diário?

Sim. Por um lado, precisamos transformar o ambiente de trabalho. Ele não precisa ser tão violento, tenso e competitivo. Em paralelo, podemos relaxar na sabedoria de que sempre haverá algum nível de caos e conflito ao nosso redor. A vida não se resolve. Não importa o que aconteça, a qualquer momento, em qualquer situação, podemos soltar a rigidez no corpo, destravar a respiração, ampliar a visão e abrir o coração. Isso é sempre possível. Nenhuma situação realmente consegue nos tirar esse poder. Até mesmo uma mãe que perde o filho pode descobrir a força inacreditável da compaixão. Porém, não basta só você fazer isso. É preciso criar condições para que mais e mais pessoas possam florescer. 

Gustavo Gitti é professor de TaKeTiNa , coordenador do olugar.org e facilitador no Centro de Estudos Budistas Bodisatva – CEBB SP, como aluno de Lama Padma Samten e do Professor Alan Wallace. Além de cursos sobre meditação, relacionamentos e felicidade genuína, já ofereceu sua visão para empresas, como Vivo, Evonik, SESC SP, Dante Alighieri, Natura, e também para universidades, como HC-USP, Unifesp, Unicamp, UFRN, UVV, UFJF, UFRJ e PUC Minas. 

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Paciência e universo corporativo: vai dar match?

Pare por um segundo para respirar e pense: você já perdeu a paciência hoje? Pode confessar que, muitas vezes, a gente não consegue segurar os impulsos e aumentar a voz é o primeiro passo para cair no abismo da irritação. Quando você percebe, já está mergulhado lá, de cabeça quente. Mas e se te contássemos que ser forçado a parar e respirar para esperar pelas coisas torna as pessoas mais bem-sucedidas, você acreditaria? Uma pesquisa publicada no Journal of Organizational Behavior and Human Decision Processes mostrou que, em um mundo preparado para o imediatismo, a paciência surge como uma virtude capaz de reforçar o valor de algo e, talvez ainda mais importante, gerar mais disposição para esperar. “Existem grandes recompensas para quem pode atrasar a gratificação. Basicamente, a pesquisa ensina que paciência e autocontrole predizem sucesso na vida, pelo menos tanto quanto ser inteligente (ou seja, habilidades cognitivas).”, relatou uma das pesquisadoras.

No ambiente corporativo, muitas vezes, a paciência é vista como sinal de fraqueza. Mas as coisas estão mudando — tanto para colaboradores quanto para lideranças. E sabe por quê? Aprender a ser tolerante com os próprios erros e com os dos outros, estando aberto a ouvir antes de ser ouvido, é a chave para manter o autocontrole e cultivar o dom de alcançar aquele segundo de equilíbrio que vai impedir que a tormenta se instale no seu dia a dia. Para Fishbach, também autor do estudo citado anteriormente, “a razão pela qual isso funciona é que as pessoas aprendem sobre si mesmas da mesma maneira que conseguem entender os outros, através da observação. Nós nos observamos esperando e aprendemos que valorizamos o que estamos esperando”. 

O universo corporativo, atento às novas demandas sociais, já está de olho nessas nuances de comportamento. O McDonalds, recentemente, enfrentou na prática o “efeito da paciência”. Depois de introduzir em seu menu uma opção feita com carne fresca — que leva um minuto a mais para cozinhar do que um hambúrguer congelado —, teve de lidar com clientes insatisfeitos e, eventualmente, irados. A paciência, claro, se esgotou rapidamente. No entanto, uma vez que os clientes sabiam que seus hambúrgueres estavam sendo feitos de um jeito mais premium — e que havia uma razão para o atraso —, a paciência aumentava. Quer um exemplo mais antigo? Na década de 70, o ketchup Heinz ainda era vendido em garrafas de vidro, o que aumentava o tempo até que o líquido descesse e finalmente saísse da embalagem, exigindo que os consumidores dessem as famosas batidinhas para acelerar o processo e esgotassem seus estoques de paciência. A solução foi comunicar, por meio de uma paródia com um hit musical de sucesso da época, o porquê da espera. Com o slogan “It’s slow good”, aumentaram a confiança subjetiva dos consumidores, garantindo que a demora era graças a espessura do produto estar ligada a uma qualidade superior. Resultado? Pessoas menos irritadas com suas “gratificações tardias”

Paciência tem limite? Sim, mas isso não significa esgotá-la rapidamente

A gente cresce ouvindo dos nossos pais: “olha que minha paciência tem limite”. E o que parecia apenas uma ameaça depois de alguma pirraça boba ou má resposta se transforma em uma crença que muitos de nós custa a identificar — e os vestígios dessa paciência que acaba bem rapidinho vai passando de geração para geração. Não é de se admirar que cada um de nós carrega a impaciência quando vai para seus ambientes de trabalho. Tudo pode estar calmo e, em questão de segundos, a nossa vulnerabilidade é colocada em xeque e toda a performance é prejudicada porque nos vemos fora da nossa zona de conforto, a ponto de explodir.

Mas espera! Respira beeeem fundo: seu cérebro precisa de um tempinho para recobrar o controle dos pensamentos antes de você começar tudo de novo (ou jogar tudo para o alto).

Sem paciência, uma simples conversa vira discussão, um argumento contrário na mesa de reunião pode levar todo o time a declarar guerra e, no final dela, todo mundo sai perdendo junto. Assim como a paciência, o autocontrole também atinge um limite que vai diminuindo conforme o uso, como mostrou um estudo da Universidade de Iowa liderado pelo neurocientista William Hedgcock. Em resumo, ele descobriu que o cérebro, quando identifica uma situação em que vamos precisar de autocontrole, nos manda um alerta do tipo “ei, existem várias respostas para isso, e algumas delas podem não ser boas”, enquanto o seu córtex pré-frontal vai sendo estimulado a cada esforço para resolver o caso, sinalizando que a paciência está no fim; é quase uma placa vermelha dizendo “perigo à frente” e você é a única pessoa que pode optar por uma atitude impensada ou manter a cabeça fria para tomar as melhores decisões. “Depois que a piscina (da paciência) secar, é menos provável que nos refresquemos na próxima vez que enfrentarmos uma situação que exige autocontrole porque leva tempo para enchê-la novamente”, concluiu Hedgcock.

Paciência flerta com boa convivência

Conviver harmoniosamente dentro do ambiente de trabalho é uma troca diária, que pode ser intensa, turbulenta, ou simplesmente pacífica. Concorda?

Na SPUTNiK, a gente acredita que tem como construir essa troca de diferentes formas para dar um Match sempre baseado no diálogo, para fazer todos os corres cotidianos, e isso inclui um tanto de inteligência relacional e mais um tanto de paciência. Muita gente (ok, quase todo mundo) quer gratificações instantâneas sem esperar muito: um aumento de salário, ser promovido, lançar um produto inovador. Mas qual é o custo desse imediatismo?

Você pode se desafiar a reduzir a velocidade – dentro e fora do escritório – dia após dia, como um treinamento mesmo, e conhecer uma pessoa paciente que você nunca imaginou ser. Tudo vem com a prática, e uma pesquisa publicada no Psychological Science Journal revelou que quando você se convence a esperar por algo, você na verdade vai se sentir mais feliz a longo prazo porque aprende a trabalhar sua paciência. Outra dica que pode parecer assustadora é aprender a dizer não ao que vai atrapalhar a sua rotina de atividades, causar stress ou te deixar impaciente — e se você for o líder do seu time, essa impaciência pode afetar a performance dos demais. Isso é um dos malefícios de ser multitasking por exemplo, e é frustrante ver que não estamos progredindo porque às vezes não identificamos fatores simples que se colocam no meio do caminho: terminar uma tarefa antes de começar a outra é um bom começo para evitar esse rush sem fim.

Take it easy and slow down

Criatividade, produtividade, colaboração, qualidade e até a sustentabilidade das empresas. Tudo isso sofre os efeitos positivos da paciência no universo corporativo, e mais do que isso, no que o mercado atual exige de nós. No InSANO, tocamos na ferida da crise psicológica que precisa ser diagnosticada nas empresas para salvar seus colaboradores do caos para trabalhar feliz de verdade. E falar de paciência nesse contexto de descobertas saudáveis e produtivas tem tudo a ver com a melhoria da cultura organizacional, em que o espaço para a paciência tem de estar reservado em meio aos resultados tangíveis e decisões imediatas. Profissionais que praticam a paciência constroem melhores soluções para problemas, o que conduz a negociações bem-sucedidas e conquista de (auto)confiança. Quer um exemplo? Bill Gates, o homem por trás da grandiosidade da Microsoft, dá um stop na sua agenda duas vezes por ano para pensar no futuro da empresa em uma espécie de retiro que ele chama de “Think Week”. Ano passado, Gates se aventurou numa cabana no meio de uma floresta em algum lugar do Noroeste Pacífico para ler milhares de textos escritos por seus colaboradores, e em 1995, foi num desses momentos consigo mesmo que ele desenvolveu o Internet Explorer, o início do que entendemos hoje como navegador online. É ou não é uma boa prática trabalhar a paciência para conquistar a inovação?

A paciência é uma virtude – já dizia o sábio poeta inglês William Langland em 1360, no seu poema sobre um homem em busca de sua fé –, e não poderia ser diferente quando você se vê no seu ambiente de trabalho agora em 2020, em meio a tantas demandas e responsabilidades: sai ganhando quem consegue desenvolver a habilidade estratégica de parar e refletir antes de decidir qualquer coisa. Tudo muda quando os profissionais entendem que está tudo bem esperar para ver o que acontece, e enquanto isso simplesmente não fazer nada a respeito, e é assim que as organizações estão se reinventando. Cabe aqui dizer que, por incrível que pareça, a origem da paciência é a palavra que, em latim, define “sofrer, aguentar”, mas no mundo corporativo ela se ressignificou como tolerância, antes mal vista por também carregar o peso da passividade, hoje admirada porque representa evolução. Há tempos, paciência deixou de ser sinônimo de complacência quando se trabalha em equipe cedendo lugar ao entusiasmo de conseguir refletir melhor antes de seguir adiante, sozinho ou em grupo, rumo a qualquer que seja o objetivo que leve ao progresso. Agora, ser impaciente às mudanças é uma exceção que você pode abrir para conseguir enxergar além, aprender com os erros e esperar calmamente pelo que vem por aí. E pode ter certeza: quando você relaxa e respira fundo várias vezes, bem devagar, tudo parece mais fácil, e se isso deixa a gente mais feliz e preparado, vale a pena tentar.

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Há ciência por trás da paciência?

Sabemos, ainda, muito pouco sobre paciência. Apesar de ser uma virtude altamente relevante na vida cotidiana, a paciência ainda não foi estudada sistematicamente entre culturas. Um estudo chamado Patience in Everyday Life: Three Field Studies in France, Germany, and Romania cruzou informações importantes para tentar mapear o ritmo de vida. Embora não houvesse evidências para essa hipótese e os resultados apoiassem a noção de que a paciência é específica de cada situação, foi possível compreender que o tipo de reação exibida nas situações de espera diferia entre as culturas, indicando maneiras específicas de lidar com a impaciência. Não sabíamos, algumas semanas atrás, como seria lidar com a ansiedade durante uma quarentena forçada, mas tão necessária à sobrevivência mundial diante do desconhecido.

O que sabemos sobre a habilidade da paciência ainda é pouco, mas de forma nenhuma irrelevante. Temos conhecimento, por exemplo, que não se nasce paciente. Os bebês choram quando têm fome. Não toleram a insatisfação imediata de uma necessidade primária. É pouco a pouco que vão aprendendo que, ainda que demore um pouco mais, finalmente lhe darão de comer. Impacientam-se, mas com o tempo aceitam, sem chorar, o sofrimento da fome, porque sabem que o alimento chegará. A natureza da criança é a impaciência, porque poucas coisas dependem delas, quase nada está sob seu controle. Crescemos e vamos aprendendo a lidar com as situações das mais inesperadas possíveis. Nossa paciência vai ganhando contornos e elasticidade, vamos aprendendo até a viver, com autocontrole, durante uma pandemia que foge completamente ao nosso domínio. 

Um estudo feito por Sarah Schnitker, chamado The Neuroscience of Patience, descobriu — em outro contexto mas que é válido porque se relaciona ao ser humano — que, caso uma recompensa oportuna seja garantida, nossa serotonina aumenta em até 75% garantindo o que se nomeou “o efeito da paciência”. Os benefícios vão além da resiliência momentânea: tal pesquisa também comprovou que esse aumento da paciência garantia diminuição da depressão e o aumento do afeto positivo em relação a uma situação de controle, sugerindo que a paciência pode, sim, ser modificável.

Paciência como o hábito de saber esperar

Nessa sua investigação sobre a relação entre a neurociência e a paciência, Sarah Schnitker ressalta que a paciência é algo fundamental para a experiência humana como um todo, afinal, esperar por algo é inevitável, a gente simplesmente não tem para onde fugir ou se esconder. Quanto mais você se aborrece e se irrita no dia a dia, mais isso pode afetar negativamente a sua saúde física e mental. Claro que cada um vai reagir de uma maneira diferente mesmo vivenciando a mesma situação, mas se ambas as partes estiverem focadas na tranquilidade, a solução dos problemas fica muito mais palpável. Sarah revelou, ainda, três expressões distintas de paciência: uma paciência útil ao tratar com dificuldades na vida, uma paciência para lidar com aborrecimentos pelos quais passamos diariamente, e uma paciência interpessoal, que diz respeito aos relacionamentos com outras pessoas. Imagine, agora, uma situação estressante no seu trabalho, algo que saia do seu controle e que precisa ser solucionado. Às vezes você não vai conseguir ir para casa sem levar esse problema na bolsa, e isso pode levar à irritação mais facilmente com alguma coisa simples, como uma torneira que parou de funcionar. Dentro desse mesmo cenário, por estar irritado com o que precisa resolver amanhã na empresa e com a torneira estragada, você vai se exaltar esperando o seu filho entender que a questão de matemática precisa ser respondida seguindo uma outra lógica, e não a que ele está usando há mais de 15 minutos sem sucesso. Pronto! Em menos de 24h, você experimentou situações corriqueiras nas quais poderia usar esses três “tipos” de paciência antes de fazer suas escolhas: ficar “pê da vida” com o colega de trabalho, quebrar a torneira e desistir de ensinar a lição. Ou respirar fundo, parar para analisar cada momento e tomar, paciente, as melhores decisões.

Esse é um exemplo, mas acontece todos os dias com todo mundo, em diversas proporções. E é exatamente por isso que a gente insiste no fato que, mesmo que pareça difícil (até impossível de vez em quando), aprender a ser paciente é um mal bem necessário. É a sua capacidade de saber parar e esperar que vai aumentar suas emoções positivas e sua satisfação com a vida, no sentido mais hedônico que isso possa ter. Você vai passar a enxergar a paciência sob a ótica da motivação, do bem-estar e da autonomia. O que vai na contramão do que te desgasta, descontrola, do que é incerto e tira o seu sossego. Ser paciente não é sinônimo de ser fraco, e sim de estar presente, consciente de que é impossível ter o controle das situações, mas é lindo (e libertador!) quando você consegue se controlar. 

Nada acontece na sua zona de conforto

A gente precisa inverter a ordem de certas coisas. O caminho para o sucesso fica mais curto e leve quando você coloca o objetivo como ponto de partida, e não como destino final. E não tem nada de errado em mudar o rumo no meio dessa caminhada, mesmo que você se perca, em algum momento, vai se (re)encontrar. O segredo é, nesse processo, conseguir se (re)organizar, olhar mais uma vez para o cenário, (re)analisar a estratégia, para, enfim, dar as mãos para a sabedoria de se (re)conhecer aproveitando o tempo de espera.

Tendo a falta de paciência como start, a SPUTNiK decidiu se aprofundar no tema para ajudar você (e a nós mesmos) a aprender como ser mais paciente em todos os âmbitos – pessoal, profissional, relacional – e para isso a gente convidou Andréia Matos, que estuda culturas vivas e mutantes, comportamentos e suas manifestações materiais e simbólicas, para descobrir juntos o que a paciência tem a ensinar. Temos certeza de que você vai curtir o que temos para compartilhar sobre essa pesquisa rica, intensa e reveladora.

Desde os primórdios, pode-se encontrar vestígios de que a paciência é algo desejado pelos seres humanos, mesmo que sob diferentes perspectivas. O que foi mudando é a ideia de que, menos do que difícil de ter, a paciência traz consigo autocontrole, tolerância, compaixão, e indo mais fundo, fé, amor e esperança. Na verdade, esperança já representa, por si só, o ato de esperar por algo que está por vir, e para esperar você precisa de quê? Pois é, a resposta está bem aí, na sua frente, esperando para ser encontrada. Por falar em respostas, a gente procura por elas o tempo todo, e isso nos deixa ainda mais impacientes, o que significa estar, de um jeito ou de outro, rejeitando o presente enquanto se imagina o futuro ideal. Estar impaciente é fugir da realidade, é olhar sempre para frente e não para o agora, que é exatamente onde a gente tem que viver para ter mais chances de estar preparado quando o amanhã chegar. O pior é que, às vezes, esse futuro chega tão rápido e a gente se vê, de novo, impaciente para saber como lidar com ele.

A ciência por trás da paciência mostra que, mais do que ser capaz de esperar, a paciência tem que ser trabalhada dentro do viés da constância, que nada mais é do que concentrar a sua atenção em apenas uma atividade específica por vez. Isso pode ser uma aula de bordado ou usar o processo lento de fazer um pão como uma ferramenta para diminuir o ritmo, mesmo que por algumas horas, o que já se tornou uma espécie de fenômeno cultural para um lifestyle no qual se desconectar da loucura da tecnologia é se voltar para o que é real, que te alimenta, te faz sentir vivo e ativo, quase que conectado emocionalmente com uma atividade que exige concentração e muita espera. Andréia cita o neurocirurgião Lamberto Maffei para trazer uma reflexão sobre a necessidade do cérebro de pensar devagar, mesmo sendo uma parte do corpo que, naturalmente, se permite ter reações rápidas e automáticas para facilitar a nossa sobrevivência. Para Maffei, esse mesmo cérebro é constituído por um mecanismo sofisticado que tem a função de refletir de forma bastante elaborada, em um processo mental que é lento porque carrega consigo o peso da memória, da dúvida e da incerteza do raciocínio. E isso acontece com os seres humanos a todo momento porque todos queremos acelerar processos que deveriam ocorrer devagar, antes de se permitir dar grandes saltos. “O sucesso da noite pro dia é um mito contado a partir das exceções, e não da regra”, Andréia conclui.

Quando você tira um tempo para si mesmo, para aprender uma nova habilidade, para se dedicar a um projeto inovador, isso leva tempo. Você está investindo em algo porque acredita que isso vai te levar além de onde você se vê hoje. Você, na verdade, decidiu sair do modo automático para estar presente em algo que quer fazer com maestria, é muito mais sobre colocar sua energia e esforços do que focar no objetivo per se. É , ao invés das 10 mil horas de estudo para se tornar um expert em algo, ser como um takumi, o mais alto nível de artesão no Japão, que não se torna mestre antes de refinar seus conhecimentos por 60 mil horas. É concordar com Michelangelo quando ele disse que “gênio é aquele que tem paciência eterna”.

Dá até um calafrio pensar em ser paciente eternamente, concorda? Mas e se você pensar que foi impaciente até hoje, depois de ter vivido vinte, trinta, sessenta anos? Nunca é tarde para aprender a ter paciência, até para escolher se entediar, o que é visto por muitos de nós como o insuportável “ficar sem fazer nada”: curtir o ócio que pode ser muito criativo — como bem disse o professor e sociólogo italiano Domenico De Masi — para se dar ao prazer de conciliar trabalho e lazer antes de se entregar à facilidade de desenvolver melhores ideias exatamente porque se desligou do que tanto te incomodava para equilibrar funções profissionais com seu tempo livre. Se você está cansado e saturado, vai ser mais difícil seu cérebro atingir o desempenho máximo da criatividade. Byung-Chul Han, em seu livro Sociedade do Cansaço inspirado pela exaustão, apresenta a violência neuronal, conceito em que as pessoas estão cada vez mais em busca de resultados e se tornam, elas mesmas, vigilantes e carrascas de suas ações, em um cenário mundial no qual trabalhamos mais para receber menos. A produtividade excessiva passa a nortear os profissionais, que se perdem no conceito real de desempenho, caindo, assim, no abismo da depressão e do fracasso; o ser multitasking passa a representar um excesso de estímulos, e o resultado não poderia ser diferente: atenção rasa que leva à fadiga e impaciência.

Você é human being ou human doing?

Nessa ideia sobre se desconectar para não pirar, Andréia conta sobre a nova tendência holandesa de bem-estar: o Niksen, que é o permitir que seu cérebro vague ativamente alterando a percepção de tempo desperdiçado pela apreciação do tempo inativo na sua rotina. É ser paciente (e sábio!) para deixar de ser ocupado e escolher não fazer nada, mesmo que seja no seu break de 10 minutinhos para o café. Essa corrente de pensamento abraça o “estar ocioso sem propósito” ao deixar a mente livre para ir aonde quiser, saindo do estado constante de consciência se for preciso, para deixar os pensamentos fluírem sem direção. “Pesquisas sugerem que esse tipo de relaxamento, além de reduzir a ansiedade e até retardar o envelhecimento, pode aumentar a criatividade, a resolução de problemas e a memória”.

A paciência (e a falta dela) como ciência não é uma exclusividade dos humanos, mas sim uma característica evolutiva de todos os animais. Todos nós, pessoas, temos liberdade de escolha, e se temos como opções recompensas de curto ou longo prazo, a tendência é optarmos pelo que demora menos tempo para alcançar. Ninguém quer esperar por nada. Mas deveria. Sabe por quê?

O futuro é incerto. Felizmente essa é uma certeza que temos, afinal como seria chato sempre saber o que vem a seguir. E mesmo ansiosos pela gratificações imediatas, ainda assim, somos dotados da capacidade de esperar anos por outros tipos de ganhos. Se compararmos os humanos com chimpanzés e bononos quando falamos sobre recompensas, vemos que os humanos tomam decisões baseadas em diferentes contextos, e por isso se mostram dispostos a esperar mais por dinheiro — recompensa abstrata — do que por comida; os animais exibiram maior paciência do que os humanos quando precisaram esperar pelo retorno maior . Da mesma forma, assim como os humanos, muitos primatas têm a perspectiva de futuro e a capacidade de fazer planos. Mas diferente de nós, eles conseguem desenvolver maneiras mais flexíveis de lidar com o amanhã porque estão mais dispostos a esperar, com menos impulsividade, por exemplo, quando se trata do acasalamento e do momento certo de se relacionar para procriar, ou de uma recompensa alimentar maior quando a quantidade se torna a motivação para esperar um pouco mais para, finalmente, comer mais também. 

A neurociência por trás da paciência

Em busca da neurociência da paciência, Andréia descobriu que a amígdala, parte do nosso cérebro responsável por eliminar ameaças e regular emoções, tem grande influência na impaciência porque, mesmo tendo evoluído junto com o ser humano, ainda não é tão eficiente em distinguir o que é realmente ameaçador do que apenas parece uma ameaça. Um bom exemplo disso na pesquisa é quando temos de nos relacionar com uma pessoa desagradável, e o que podia ser simples, te deixa extremamente irritado, às vezes deixando o momento mais terrível do que realmente é porque a amígdala pode encarar essa pessoa como um grande tigre feroz. O que faria quem está treinando a ser mais pacientediante de situações como essa? Pararia, analisaria o que desencadeia a irritação para, em seguida, dar o primeiro passo para assumir o autocontrole.

Até a tomada de decisões baseada na paciência tem ligação com a neurociência. Queremos recompensas oportunas, e não tem nada de errado nisso. O que precisamos entender é que a paciência é, em grande parte, uma questão de confiança — em si mesmo e no outro —; por outro lado, esperar por gratificações tardias (até mesmo 40 anos depois!), mostra que estamos nos planejando porque acreditamos que essa espera será, no final, bem relevante para os nossos objetivos mais amplos. Isso conduziu a pesquisa, aliás, a trazer um panorama sobre o que representa para o indivíduo, hoje, olhar para a paciência a longo prazo. O presente que construímos é direta e indiretamente afetado pelo futuro que existe apenas na nossa imaginação, sem contar o passado que ainda não entendemos por completo. E não tem nada de errado nisso, só precisamos estar presentes na ideia de que o projeto de futuro que queremos tem de começar a acontecer agora, que não temos de lutar contra isso, mas aceitar e viver como se fosse algo corriqueiro. E é.

Fica até difícil pensar nisso em meio a uma pandemia, um tempo incerto e desconhecido, sem falar em outros recentes acontecimentos na política, outros no âmbito social e ambiental: nos vemos sem perspectivas. Gallup, uma empresa global de consultoria e análise focada no ambiente organizacional, descobriu, em uma pesquisa realizada em 2018 em mais de 140 países, que os sentimentos negativos, como tristeza, raiva, estresse e preocupação, aumentaram drasticamente na última década: os resultados mostram, por exemplo, mais de um terço das pessoas relatando muita preocupação (39%) ou estresse (35%), três em cada 10 (31%) com dor física e pelo menos um quinto com tristeza (24%) ou raiva (22%). Em contrapartida a essas reações negativas (e para encontrarmos alternativas para fugir delas), projetos como o The Long Time Project nos convidam à mudança, a alterar a dinâmica nas esferas pessoal, cultural e social, o que muda, para melhor, o desenvolvimento da ciência, da política, da economia e da tecnologia  — e, mais ainda, no modo como nos sentimos, para desenvolvermos empatia e nos conectarmos, o que vai gerar mudanças na maneira como nos comportamos a curto prazo para impactar o que chega mais à frente.

Você pode estar se perguntando: afinal, o que tudo isso representa? 

Não sabemos a resposta, mas estamos tentando indicar caminhos — uns mais curtos, outros mais longos — para você, junto com a gente, aprender a viver com essa tal paciência, a aceitar a lentidão de uns processos, a profundidade de outros, e do outro. Nem a neurociência da paciência poderia prever situações que fogem tanto ao nosso controle, como essa que vivemos agora, em março de 2020, e que logo ali, em janeiro do mesmo ano, nem sonhávamos estar enfrentando. O mundo muda porque a gente muda, e seguimos, assim, o curso da natureza, que nos ensina dia após dia que não adianta correr nem se estressar (pelo menos não a ponto de nos paralisarmos). Só nos resta ter paciência para ver o futuro chegar, de mansinho ou de supetão. E se você estiver pronto para recebê-lo, tranquilo e consciente, disso você pode ter certeza: respira fundo, toma seu tempo e acredite que tudo vai, sim, ser mais leve. Estamos descobrindo como controlar um vírus e como conviver com o rastro que ele deixa. Mas controlar a si mesmo — suas emoções, ansiedade, expectativas, frustrações — ah, isso só depende de você e da sua paciência.

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Comunicação não violenta no universo corporativo: será que dá liga?

A comunicação está no gene social da humanidade. Entretanto, sabemos, de fato, nos comunicar bem? Ouvimos genuinamente o outro ou só aguardamos, impacientes, nossa hora de falar? Dentro de um contexto massivo de polarização de ideias e ideais, saber como se comunicar de forma não violenta é importantíssimo para que consigamos derrubar muros e construir, juntos, mais pontes. Se o assunto já está saturado na vida pessoal, aplicá-lo no dia a dia corporativo ainda é um desafio e tanto. Difícl, mas não impossível. 

Afinal, o que é CNV?

Marshall Rosenberg é o psicólogo norte-americano por trás da criação do termo Comunicação Não Violenta (CNV) na década de 60, época em que a segregação começou a se fazer muito presente na sociedade global, assim como movimentos a favor dos direitos civis. Foi ele que, em meio ao caos, enxergou uma forma de contribuir para a luta contra a desigualdade e o racismo. De dentro dos espaços educacionais nos quais trabalhava, ecoou as técnicas que ficaram conhecidas principalmente para a resolução de conflitos. Adivinha onde? Sim, no ambiente de trabalho, expandindo, depois, para o âmbito social como um todo.

“Expressar nossa vulnerabilidade pode ajudar a resolver conflitos (…) Estamos acostumados a pensar que há algo de errado com as outras pessoas sempre que nossas necessidades não são satisfeitas. (…) CNV é expressar-se com honestidade, receber com empatia.”

Marshall Rosenberg

Conexão, compaixão e comunidade. Esses são os pilares da metodologia educacional criada por Rosenberg para aprimorar relacionamentos interpessoais e diminuir, de alguma maneira, a violência no mundo. Para difundir seus conhecimentos, Marshall inaugurou centros de estudos dedicados ao tema em vários países, inclusive no Brasil. A CNV tem como alicerce a comunicação que une os indivíduos, que permite falar e ouvir na mesma medida, que traz a compaixão como ingrediente principal da conexão. Importando o conceito para dentro do universo corporativo, podemos entender como nutrir uma nova forma de se expressar e ouvir conscientemente de acordo com cada situação — e o conflito (incluir aqui o link do texto 2 sobre conflito) é um bom exemplo disso. A partir das técnicas da comunicação não violenta, é possível estabelecer comportamentos harmoniosos inspirados pelo diálogo, respeito, atenção e empatia.

E por falar em empatia, a CNV é também conhecida como comunicação empática, e, de acordo com o legado de Rosenberg, é fundamental se concentrar em quatro pontos que norteiam o método e podem ser decisivos na comunicação organizacional, quando o objetivo é substituir o foco nas atitudes e falas do outro pelo foco em suas reais necessidades:

1 – Observação

Paramos de avaliar e julgar o outro para observar o que o outro está fazendo sem considerar a sua visão sobre o assunto. Exemplo no ambiente de trabalho: você delega uma tarefa e ao receber o job critica a execução, o que demonstra que está julgando antes mesmo de refletir e observar.

2 – Sentimento

É a aceitação do seu sentimento frente ao que foi observado anteriormente. Exemplo na situação anterior: após observar e alterar o feedback trazendo pontos que podem ser melhorados, você entende que se sentiu frustrado porque a tarefa não superou suas expectativas. 

3 – Necessidades

É hora de identificar as necessidades que não foram atendidas e que se relacionam com o sentimento anterior. Dentro do nosso exemplo: você pode explicar melhor o que era para ser feito na tarefa, aprofundando em detalhes mais específicos para que cumpra o objetivo esperado.

4 – Pedidos

Depois de observar, descobrir o sentimento e identificar a necessidade, o último passo é formular um pedido ideal. Para finalizar usando a nossa jornada: no caso da tarefa, você vai escrever ou falar com o colaborador os pontos observados, as melhorias que poderiam ter sido apresentadas, expressar o seu sentimento de frustração e pedir, com educação e respeito, que o trabalho seja revisado ou refeito. É ou não é muito mais efetivo do que simplesmente dizer “não gostei do resultado, está péssimo!”?

CNV funciona no dia a dia de trabalho?

Em resumo, você pode encarar a comunicação não violenta como uma forma de observar, entender os sentimentos e encontrar a melhor forma de se conectar com os gatilhos que desencadeiam determinados comportamentos. Na verdade, dentro e fora do trabalho, todos temos a capacidade de sentir e agir com compaixão, pensando no outro, e essa conexão com si mesmo e com seus colegas é o que vai te ajudar a trabalhar a sua paciência, estando sempre de coração aberto para ir além do simples “certo e errado”.

De acordo com a revisão sistemática de pesquisas a partir de 2013 realizada por Carme Mampel Juncadella sobre como a CNV pode ser aplicada para desenvolver a empatia, essa abordagem oferece a vantagem de um conjunto bem definido e padronizado de construções e processos ensinados em um treinamento dinâmico e estruturado. Porém, vale ressaltar que o aspecto multidimensional da empatia dificulta a mensuração de dados, por exemplo, no que ela definiu como um inevitável viés de subjetividade. Mas é bem possível destacar a inter-relação íntima entre o aprimoramento da empatia com as habilidades de resolução de conflitos, de comunicação e de relacionamentos, consistente com pesquisas anteriores sobre empatia e comportamento social.

Dar o primeiro passo para implantar a CNV é entender que esse não é um processo mecânico, muito pelo contrário, é algo que vai ser construído por todos. E isso não significa seguir dicas ou passos cegamente, mas identificar as emoções do outro e como ele se enxerga para conseguir, juntos, trilhar um caminho de equilíbrio e empatia. Todo dia é um novo momento de aprender, observar e pensar antes de falar ou tomar alguma atitude. E o que mais pode ser interessante nesse processo?

  • Saber o seu papel: não importa se você é o líder ou o colaborador, o exercício é sempre se colocar no lugar do outro antes de fazer ou ouvir críticas, e as etapas de observação, sentimento, necessidades e pedido é uma via de mão dupla dentro do universo corporativo.
  • Exercitar o diálogo: aprender a falar e a ouvir é um task diário, e ao longo do trajeto, você vai descobrir dinâmicas, desafios e práticas que vão favorecer a CNV como um hábito dentro da empresa.
  • Enxergar além do comportamento: Marshall concluiu que, por trás de todo comportamento, há uma necessidade, e isso traduz a ideia de que quando você consegue ver a motivação que leva à ação, você encontra o que está gerando o conflito de verdade para criar discussões saudáveis e livres de julgamentos.
  • Baixar a guarda:  pode parecer complicado, mas se desarmar quando está se comunicando no ambiente de trabalho é abrir espaço para uma conexão mútua.
  • Descobrir os gatilhos: passe a se perguntar o que faz com que você tenha dificuldades em se comunicar com os outros para começar a trabalhar em cada um dos gatilhos em você primeiro, mas depois conseguir ajudar os demais também.
  • Expressar e receber: quando você se expressa com autenticidade, consegue receber o que vem do outro com mais empatia, isso é primordial para trabalhar em equipe e, mais do que isso, para vencer os obstáculos juntos.

Como você viu aqui, por trás de toda a metodologia da Comunicação não violenta, o objetivo é fortalecer os vínculos entre as pessoas, dando o valor que as relações saudáveis dentro e fora do ambiente de trabalho merecem. Quando os colaboradores e líderes percebem que estão sendo motivados a construir a empatia uns pelos outros, não tem como evitar o clima harmonioso que vai se instalar, acompanhado do aumento da produtividade, da satisfação e, claro, dos ótimos resultados. E num ambiente onde as pessoas se sentem conectadas e engajadas, não há espaço para conflitos ou desrespeito.

Baixe aqui o e-book com o estudo completo de paciência.

A hurry hurry world: passado, presente e futuro sob o viés da paciência

“É preciso permitir às coisas seu próprio passo…
É preciso viver tudo.
Quando se vive as perguntas, vive-se também,
talvez, aos poucos, sem que se perceba,
no romper de um dia desconhecido,
o começo das respostas.”


Rainer Maria Rilke

O mundo todo mudou em questão de segundos. Estávamos todos vivendo nossas vidas dentro da normalidade de cada um, e de repente, tudo mudou de lugar. Somos obrigados a nos trancafiar em casa porque não sabemos o que vai acontecer daqui algumas horas, se mais pessoas serão infectadas por um vírus que ainda desconhecemos por inteiro e, exatamente por isso, ainda não sabemos como lidar nem acabar com ele. A correria da rotina foi transportada para dentro de casa, e quem pode já está se adaptando à nova realidade do home office “forçado”. Passamos, de algumas semanas para cá, a viver uma nova ansiedade crescente e periclitante, diferente de tudo o que conhecíamos há alguns dias atrás. Como ficar imune à impaciência de não saber quando tudo volta ao normal?

Porém, mesmo com a pandemia, algumas coisas não mudaram: agendas abarrotadas, compromissos inadiáveis, entregas urgentes. Demandas profissionais, pessoais e um mundo que busca cada vez mais que o indivíduo performe bem. Conflitos internos, externos, desavenças no home office e na convivência em casa. Polarização política, novas doenças, catástrofes ambientais. E existe, ainda, um medo por não saber como encarar essa pressão causada por um vírus, que está por um triz de nos conduzir ao Burnout – síndrome ligada ao esgotamento físico e mental dos profissionais em ambientes de trabalho –, que antes do mundo virar de ponta-cabeça, já tinha crescido 114,8% entre 2017 e 2018

Só nos resta nos perguntar: e nós, como ficamos nessa nova panela de pressão cotidiana?

2020 chegou e, na última década, tivemos a sensação de que o tempo se espremeu. Com a pandemia e o isolamento social — a quem tem esse privilégio —, a percepção temporal muda, de novo, completamente. Em tempos de home office, parece que, cada vez mais, falta hora no dia. Antes, a sensação era de que, mais agitados e corridos, perdemos a capacidade de parar. De tomar tempo e espaço para pensar melhor, para aproveitarmos o ócio ou para, com calma, resolver aquele problema ou outro. Agora, somos forçados a frear. Em ambos os cenários, a paciência é um ativo social necessário — tanto na vida pessoal quanto na profissional —, percebe? 

A gente era mais paciente no passado?

O que parece tão corriqueiro deixou de ser um hábito: você não se dá ao luxo de pensar em como a sua vida era antes — e por antes entenda poucos anos atrás. Você só pensa no futuro, e se esquece também de que o foco no presente é o que pode definir como será o seu amanhã. Decidimos, então, voltar um passo para tentar entender em qual momento a nossa paciência começou a se esgotar (ou pelo menos termos uma ideia de quando a sociedade em geral passou a perder as estribeiras tão facilmente).

A impaciência tem muito da sua origem na intolerância. A convivência entre bilhões de indivíduos com crenças e valores tão distintos – o que não exclui os problemas entre quem compartilha dos mesmos – é um processo bem complexo. As diferenças geram a falta de tolerância, o que leva ao desrespeito e, inevitavelmente, à violência. E quando a gente diz violência pode parecer algo grande. Mas não. Pequenos atos também são capazes de destruir relacionamentos, ferir sentimentos, causar mortes (mesmo que seja só da alma). E os grandes acontecimentos são responsáveis por marcar toda uma história. Não é preciso ir muito longe para chegar ao Holocausto, genocídio nazista contra os judeus ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-45), motivado pelo que os alemães apontavam como diferenças. Fruto das perdas imensuráveis do Holocausto e para combater futuras atrocidades do tipo, nasceu a Declaração Universal dos Direitos Humanos na luta pelo bem de todos os seres, iguais por natureza.

Esse é apenas um exemplo do que acontece quando o individualismo toma o lugar do coletivo, e as satisfações pessoais engolem o bem comum. Pensar em si mesmo é o motor propulsor do que chamamos de imediatismo: opiniões que divergem das minhas não são válidas nem muito menos toleráveis. É como se caminhássemos contra a conexão entre as pessoas de um jeito ansioso e intolerante. E como é possível viver e trabalhar em um tempo em que o passado “não existe”, o futuro é incerto e temos problemas de relacionamento tão profundos e arraigados porque não exercitamos o autocontrole no presente? 

As mudanças nesse ritmo de vida alucinante não são recentes e lá nos anos 70 Alvin Toffler, ao lançar O choque do futuro, foi considerado um louco que tentava prever o futuro. O que muitos não contavam é que algumas de suas hipóteses se confirmariam poucos anos depois. Ele bem disse que viveríamos “um excesso de mudanças em um curto espaço de tempo”, o que era exatamente o tal choque que deu nome ao livro. E adivinha sobre o que mais ele falava? Para Toffler, o estresse generalizado dos trabalhadores, gerado pela revolução industrial, seria uma característica inata da disrupção que a tecnologia digital traria. O que ele chamou de chegada prematura do futuro é a desorientação que domina a nossa rotina pessoal e profissional hoje, prevista no tempo dele como “a mais importante doença do amanhã”.

O analfabeto de amanhã não será aquele que não sabe ler, mas aquele que não aprendeu como aprender.

Herbert Gerjuoy

O choque do futuro previsto por Toffler é nada menos do que essa sobrecarga de informação com a qual a gente lida a todo momento. É a desorientação que o bombardeio trazido pelas redes sociais nos causa porque alimenta a ideia de que o outro é sempre mais feliz do que nós mesmos, e que, portanto, nunca alcançamos a perfeição, que na verdade não existe. E é, ainda, a maneira com a qual a gente precisa olhar para esse mundo acelerado e descobrir como acompanhar todas as mudanças sem nos sentirmos tomados pela ansiedade. 

O imediatismo de não esperar por mais nada

No passado, muitas vezes fomos obrigados a esperar porque as coisas aconteciam num compasso diferente, devagar. Só que, também num piscar de olhos, a internet e as redes sociais chegaram para virar nossa rotina de cabeça para baixo. Ficamos desacostumados a ter calma. Queremos tudo para ontem (mesmo bloqueando o que aprendemos logo ali atrás). Aquela semente da intolerância plantada no passado não muito distante foi semeada na cultura do imediatismo. Não temos paciência para o futuro chegar, mas queremos escapar do presente a todo custo. Aí, só sobra lugar para o caos se instalar.

Recebemos uma enxurrada de informações desconexas para serem compreendidas no curto espaço de tempo entre abrir um app de notícias no celular e ter de responder outras 350 mensagens na caixa de entrada do e-mail — em tempos de pandemia, então, o mar de informações é ainda mais amplo (e possivelmente mentiroso). Nada pode esperar nessa linha do tempo indefinida, e a gente fica, mais do que imaginamos, paralisados — porém ainda a ponto de explodir e (re)agir. O que poderia ser planejado é atropelado por prazos intangíveis e agendas desenfreadas. Uma tarefa atrás da outra e você nem se lembra mais o que é sair da sua mesa de escritório e tomar um café, conversando calmamente sobre a nova palavra que sua filha aprendeu ontem ou aquele seriado que finalmente teve tempo de assistir. Assim, as relações dentro do trabalho e fora dele se tornam superficiais, e o resultado pode ser trágico já que seu estoque de paciência vai se esvaindo, a irritação se instalando e a catástrofe acontecendo dia após dia. (linkar com texto 2 – paciência/conflitos)

Em busca de uma nova forma de se relacionar com o tempo, o professor Douglas Rushkoff encontrou em Present shock: when everything happens now algumas respostas para nosso instante prolongado no presente, que torna inviável pensar no que passou por ser antiquado, e também incerto considerar o que virá por tudo mudar rápido demais. Como a gente faz, então, para não ficar congelado num lugar que nem sabemos onde fica?

Rushkoff chama nossa atenção para a paciência necessária contra a desorientação. As pessoas não se envolvem com mais nada porque estão sempre correndo para resolver dezenas de outras coisas; tomamos decisões impensadas sem medir consequências, e isso afeta todo mundo ao redor. Ele diz que perdemos a chance de entender uma narrativa porque não podemos desperdiçar nosso tempo para olhar para o cenário completo; e é impressionante ver que as pessoas vendem seu tempo, e até o novo dinheiro — as criptomoedas — tem o cronômetro correndo em sua essência, o que inverte a famosa máxima de Benjamin Franklin porque o dinheiro é tempo, e não o contrário. O tempo passou a ser visto como inimigo, algo que se quer conquistar, literalmente, a qualquer preço numa corrida louca contra o relógio. Nessa loucura, a internet trouxe um novo território: o que era espaço de inovação se tornou um território de tempo humano, no qual as coisas acontecem sem intervalo para parar e pensar. A vida se tornou automática. E para ele, a grande descoberta é como cada um “recupera” esse tempo tirado de nós, o que talvez seja tarde demais. As pessoas se transformaram em uma ferramenta das empresas para manter o jogo acontecendo, e a parte humana vai se perdendo num sistema que coloca os valores humanos como obsoletos.

“Estamos presos a uma diminuição de tudo o que não está acontecendo agora — e o ataque de tudo o que supostamente é.”

Douglas Rushkoff

Hoje, dizer “obrigado pelo seu tempo” ganha um novo significado porque quando uma pessoa se dedica a algo que você solicitou com afinco e, claro, paciência, é como se fosse uma conquista de ambos os lados. E isso acontece porque, quando tudo tem de ser realizado agora, você começa a desenvolver, desde a infância, a ansiedade do não ter de esperar por mais nada, o que nos torna pais impacientes que não conseguem transmitir a paciência aos filhos. (linkar com texto 5 – paciência/mães) Todo mundo não tem tempo e, como bem pontuou Rushkoff, essa “digifrenia” online causa o caos mental, e se proteger da distração é uma tarefa quase impossível. Deixamos aqui um desafio: ao conversar com seu colega de trabalho, experimente esquecer a notificação que vibra no celular e foque pura e simplesmente nesse contato visual. Pode acreditar, a conexão real vai ser muito mais produtiva do que a digital, que deveria, na verdade, estar a serviço da nossa realidade (e não causando a destruição dela). Em tempos de home office e calls, nossa sugestão é que você olhe para a câmera quando for falar — e não para a imagem do seu interlocutor na tela. Pode, de início, parecer estranho, mas logo você vai perceber que esse pequeno ajuste faz uma grande diferença na forma como vocês se conectam. 

O futuro pode esperar: a paciência é a chave para você chegar lá

O imediatismo causa o afastamento, e a gente vivencia isso a todo instante no ambiente de trabalho porque vemos a dificuldade em estabelecer relações saudáveis. Queremos produzir, produzir, produzir, e não sobra nem um intervalo para cultivar essa conexão com o outro, que está bem ali na mesa ao lado ou a um clique da webcam. 

A ansiedade, a dor maior do “tudo ao mesmo tempo agora”, é – pasmem – o que mais leva pessoas ao suicídio, uma a cada quarenta segundos, em todo o mundo. A gente precisa entender que esse imediatismo não é um distúrbio psicológico, mas é aonde ele pode nos levar. E agora é o momento ideal de parar, respirar fundo e olhar para frente com a paciência necessária que pode nos conduzir à sanidade amanhã.

Repetimos aqui a pergunta que fizemos lá no início dessa reflexão: e nós, como ficamos?

Quanto mais a gente se afunda no imediatismo, mais dificuldades temos de encarar, com calma, os percalços no dia a dia, por menores que sejam. Ficamos frustrados, ansiosos e impacientes porque não é sempre que resolvemos todas as pendências ou cumprimos prazos. Pensando em como estamos vivendo uma era de transformações, em que, agora, observamos a volatilidade na prática, a SPUTNiK faz um convite: em tempos caóticos, como podemos, na medida do possível, nos sintonizarmos com a paciência e tirar, dessa virtude, os inúmeros benefícios que ela pode nos oferecer, tanto na vida pessoal quanto na profissional? Queremos que você tenha a paciência como ferramenta para se preparar para o que vem por aí, para lidar com tudo sem pirar. 

Em parceria com Andréia Matos, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Pesquisa de Tendências pelo Istituto Europeo di Design de Barcelona, fizemos um estudo profundo mergulhando em todos os vieses dessa virtude tão essencial para o futuro que desejamos. Para Andréia, pesquisar sobre o assunto ressoou forte entre os seus ideais, o que a fez perceber que, apesar de toda yoga e meditação que pratica, ainda tem muita falta de paciência para ser trabalhada por lá. Por aqui, e com certeza aí do seu lado, também. Acho que você vai gostar do que descobrimos juntos 🙂

É preciso aceitar a cultura slow para estarmos realmente presentes em tudo o que fazemos, e nesse cenário, a paciência é mais do que espera, é constância e atenção às tarefas como parte da cultura organizacional que muda a cada década. Falamos na pesquisa sobre a (im)paciência do universo corporativo. A urgência mudou de significado porque, hoje, nada mais pode esperar. A métrica de curto prazo das empresas é o novo caminho para o sucesso. Mas aí, em meio ao caos, somos todos obrigados a parar para repensar uma dinâmica inteira de trabalho enquanto um vírus chega e desestrutura todo o cenário mundial, nos deixando sem respostas imediatas. O que antes era importante, como o tempo de cada profissional dentro de uma empresa, hoje é substituído pelo valor das entregas feitas e do desempenho do indivíduo, independente se está há dez anos ou dez dias como parte do time. Profissionais de 25 a 34 anos já acumulam em seus currículos, em média, 6 empregos, enquanto muitos dos aposentados acumularam sete empregos em toda uma carreira. Hoje não se cultiva o apego, apenas o crescimento rápido. E, assim, passa-se a alimentar a ilusão do empreendedorismo de que o sucesso acontece num piscar de olhos, enquanto se deveria olhar para o tempo em que determinada ideia foi talhada para ser, finalmente, inovadora e excepcional. O que não se pode perder de vista, porém, é que se manter no sucesso envolve justamente essa tal de paciência, combinada com resiliência e muita adaptação a momentos incertos — como o que estamos vivendo agora — e ao que ainda vai acontecer.

Nosso estudo também mostrou que, quando você perde a paciência no trabalho, isso pode ser o resultado de algo que não conseguiu resolver consigo mesmo e, assim como o povo japonês, às vezes suprimir sentimentos negativos pode ter um impacto também negativo: explosões de fúria e até mesmo doenças psicossomáticas. É preciso entender que tempo e energia são recursos limitados, e parar de gastar seus esforços em algum projeto ou ideia pode ser mais promissor do que tentar controlar o incontrolável. Isso serve também para os relacionamentos no ambiente corporativo, em que a escuta está cada vez mais escassa (mesmo que extremamente tecnológica). Ser paciente é pensar antes de agir, em vez de reagir; é usar os princípios da Comunicação não violenta para observar a situação como um todo (uma tarefa a ser cumprida, por exemplo), sentir como isso te afeta como responsável pela demanda, identificar a necessidade que não foi atendida pelo colaborador para, enfim, definir como o pedido de execução deveria ter sido feito para que todas as expectativas fossem alcançadas, sem perder a calma nem as estribeiras. Tudo isso mostra que, quando você é paciente, consegue maximizar seu tempo antes de tomar a decisão mais acertada, aceitando o tempo como seu aliado no mesmo ritmo em que entende que, dessa forma, você age seguindo a lógica da realidade, não da impulsividade, porque alcançou o que muitos de nós ainda não conseguiu conquistar: o autocontrole.

Descobrimos que a paciência — algo que todo mundo pode conquistar por meio de treinos diários —  é o novo diferencial do trabalhador no cenário impaciente do século 21, marcado por essa cultura do imediatismo e, na mesma proporção, pelo excesso do individualismo. Pensar e se colocar no lugar do outro é doloroso para muitas pessoas porque somos convidados a mergulhar tanto em nós mesmos e nos esquecemos que, lá no fundo, o “eu” não existe sem o “nós”. É hora de mudar a chave da competição para abrir espaço para a colaboração, mesmo quando a tecnologia tentar te desviar do verdadeiro sentido de conexão: para inventar a internet, o smartphone, o airpod e a realidade aumentada, pessoas se juntaram para trazer ao mundo a inovação, uma união de carne, osso e muita inteligência não artificial, real, humana, sensível e incomparável. Antes de ser um colaborador ou um líder, somos seres humanos capazes de aprender, desaprender e reaprender todos os dias, juntos, porque a paciência é o que nos faz aproveitar o tempo para evoluir, desacelerando processos para, enfim, interligar pessoas. É, aliás, o caminho que aponta o filósofo Yurval Harari para a atual crise que nos acomete globalmente: “O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, é a cooperação”. 

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O que aquele best-seller de autoajuda não vai te contar sobre autoconhecimento

Introspecção rumo ao autoconhecimento: pelo menos desde o século 19, quando Samuel Smiles publica “Autoajuda” — considerado um dos primeiros livros do gênero popular —, há registros no mercado editorial de textos que propõem o exercício de olhar para dentro como forma de investigar a si mesmo. 

Tal busca, aliás, sempre foi analisada por filósofos como Platão, Sócrates, Spinoza e, mais tarde, Nietzsche, Sartre e Freud, que, de acordo com suas respectivas experiências e contextos históricos, presumiram diferentes ideias e práticas de como encontrar o caminho para a autoinvestigação. Na SPUTNiK, levamos a sério essa viagem e vamos dividir, aqui com você, alguns insights sobre o assunto. Vem com a gente. 

Ainda no tempo em que o termo “autoajuda” nem era ouvido, a humanidade já especulava sobre o conhecimento do indivíduo sobre si. Diferentemente de ter consciência sobre objetos e sujeitos alheios a nós, que exigem evidências para que acreditemos em suas existências, o autoconhecimento beira a lógica e o imediatismo, pois tanto o discernimento quanto o acesso ao próprio pensamento estão relacionados à razão experienciada unicamente pela espécie humana. 

O que aquele best-seller de autoajuda não te conta sobre autoconhecimento é que esse processo vai muito além de aprender a contornar problemas, controlar emoções e encontrar o sucesso, pessoal e/ou profissional.

Em primeiro lugar, essa jornada dura toda uma vida, afinal, somos indivíduos mutáveis, que incorporam valores e descartam ideias ao julgarem as realidades em que vivem. Depois,, cada um de nós trilhará o caminho do autoconhecimento à sua maneira e ao seu tempo, o que não acontece prontamente e exige muita reflexão e interpretação sobre atitudes corriqueiras e emoções internalizadas.

A jornada por essa autoanálise parece abstrata e intensa (o que de fato é), porém está mais próxima de você do que parece.

Para servir de guia pelos primeiros passos dessa estrada, a SPUTNiK compartilha quatro dicas que provam por que investir nesse processo pode se tornar o mapa de uma mina de ouro em seu desenvolvimento pessoal e profissional. Olha só!

Pense sobre quem você foi, é e será!

Ao longo da vida, especulamos sobre diversas possibilidades de quem seremos no futuro. Mas, além desse raciocínio, é importante lembrar quais eram nossas ambições e expectativas do passado para refletir sobre o que de tudo aquilo foi possível realizar no presente.

Pensar na própria história é um belo exercício como ponto de partida do autoconhecimento. Relembre suas fases de menor maturidade e reveja quais eram seus “nós” e como você os solucionou até agora. Resgate memórias de períodos mais ou menos motivados para lembrar que algumas realizações já pareceram distantes demais até se tornarem possíveis, ou até não aconteceram, mas foram seguidas de experiências frutíferas.

Faça também uma leitura do que as pessoas falam sobre suas ações. Pense pelo o que você é criticado e elogiado, para, com uma visão geral, aperfeiçoar o que é positivo e flexibilizar os pontos nos quais existem problemas.

Mapeie mentalmente seus pontos fortes e fracos

Entender nossas qualidades e defeitos permite construir uma identidade mais coerente, assim como lidar com bloqueios e limitações que impedem de prosseguir nosso crescimento pessoal.

Identificar as diferenças e considerá-las ferramentas de poder (e não fraqueza) é um dos primeiros passos do percurso em questão e, afinal, é assim que seremos capazes de guiar pontos fortes e fracos a nosso favor.

Na posição de líder de um time que busca engajamento, é essencial que você se conheça para expressar da melhor maneira suas ideias e reconhecer questões comuns ou opostas a seus colegas, tendo como resultado um workflow orgânico e eficiente.

Como benefício, observará melhorias na gestão de conflitos, na ampliação de possibilidades criativas e no estabelecimento de comunicações mais empáticas e afetuosas.

Todo mundo tem problemas (e você também)

Liderar envolve compreender que todos temos facilidades e dificuldades específicas, facilitando a organização de um time produtivo que, ao mesmo tempo, se sente respeitado.

Toda equipe é composta por pessoas que, às vezes, sentirão raiva por não conseguirem se comunicar, terão baixa autoestima por não ter confiança em suas ideias ou até tristeza pela falta de compreensão.

Dando o ponta pé inicial ao seu processo de autoconhecimento, será capaz de guiar outros colegas nessa missão, pois o reconhecimento da existência de terceiros e dos dilemas que os envolvem só é possível após a visualização e interpretação das suas próprias questões.

Se conhecer para agir e comunicar com liberdade

Em entrevista à SPUTNiK, o artista e professor Márcio Libar destaca como o autoconhecimento está ligado à nossa proximidade de objetos e ações que nos provocam boas emoções. Mas, para reconhecê-los, é necessário definir uma hierarquia de valores.

Se algo no trabalho causa mau humor, é preciso identificar o problema e reconhecer qual é o valor atribuído a ele por você. Se essa prática não acontecer, uma emoção descontrolada tomará conta da razão, causando expressões e comportamentos estranhos às pessoas que o circundam.

“No final das contas, está tudo relacionado ao acesso às emoções e o reconhecimento de sensações que causam desconforto. Quem transita próximo a seus pontos fortes fica mais perto de seus valores e, assim, mais suscetível à situações agradáveis — e o contrário idem”, comentou o professor integrante do curso de Hack Pessoal da SPUTNiK.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

“Conhece-te a ti mesmo”: três lições para te guiar no mapeamento de pontos fortes e fracos

O assunto não é novo por aqui. Já mostramos antes que o processo de autoconhecimento demanda muita investigação e interpretação de emoções e atitudes. Nesse percurso, mapear pontos fortes e fracos é tarefa obrigatória para se aproximar de seus valores e experienciar situações agradáveis.

Ao dizer “Conhece-te a ti mesmo”, Sócrates propõe uma viagem introspectiva rumo à consciência e sua capacidade interpretativa. Para o pensador grego, conhecer-se seria o ponto de partida para uma vida mais equilibrada, autêntica e feliz.

O artista Márcio Libar, dentro desse processo, apresenta a arte como uma das mais avançadas tecnologias humanas, capaz de aproximar o homem de si, que passa a se expressar (o que é diferente de comunicar), e, consequentemente, a acessar sentimentos e emoções.

Em entrevista, o educador, palhaço e também professor da SPUTNiK explica: “Eu considero o processo de autoconhecimento como criativo, que começa como uma ideia, até ser alimentada e se tornar um sentimento. Ao abrir as portas para emoções, esse sentimento as convida a dançar, atingindo a primeira etapa do processo criativo: a intenção, que deverá ser expressada”.

Para ele, a expressão artística é a organização dessas emoções. O processo criativo envolve dar conta desse universo emocional, por meio de códigos, signos, gestos, palavras, e atitudes. “Para saber se essa expressão é boa ou não, é preciso interpretar se o espectador que recebe sua comunicação é envolvido emocionalmente”.

A gente também acredita nos benefícios do autoconhecimento tanto na vida pessoal quanto na profissional. E, para aproximar você desse processo, listamos passos simples para mapear seus pontos fortes e fracos. Dá uma olhada!

Defina: qual sua hierarquia de valores?

Márcio Libar destaca como o autoconhecimento está ligado à nossa proximidade de objetos e ações que provocam boas emoções. Mas, para reconhecê-los, é necessário definir uma hierarquia de valores.

Se algo no trabalho causa mau humor, é preciso identificar o problema e reconhecer qual é o valor atribuído a ele por você. Se essa prática não acontecer, uma emoção descontrolada tomará conta da razão, causando expressões e comportamentos estranhos às pessoas que o circundam.

“No final das contas, está tudo relacionado ao acesso às emoções e o reconhecimento de sensações que causam desconforto. Quem transita próximo a seus pontos fortes fica mais perto de seus valores e, assim, mais suscetível à situações agradáveis, e o contrário idem”, comentou o professor integrante do curso de Hack Pessoal da SPUTNiK.

Reflita: quem é você? Quem você quer ser?

Os pensamentos e ideias que você carrega sobre si o coloca em contato com sentimentos que, sequentemente, abrirão portas para determinadas emoções.

Sentir raiva, baixa autoestima ou tristeza por não conseguir raciocinar ou performar como o modelo que você segue é normal, dada que a busca pela perfeição está equivocadamente normatizada em nossas mentes.

Porém, se culpar não mudará sua posição no tabuleiro. É preciso embarcar em uma viagem introspectiva e definir “qual minha impressão sobre mim?” e, depois, “como posso expressá-la?”.

O artista provoca: “Jamais serás quem tu és. Quem tu és? A resposta ideal seria: ‘eu sou’. Eu sou o que? O que eu quiser ser. E é aí que começa o processo de autoconhecimento. Quem você quer ser? Qual ser humano? E o que ainda te impede de sê-lo?”. 

A ideia é sair da condição de criatura para a de criador, que será responsável unicamente pela construção desse indivíduo que é você.

Internalize: o erro é seu melhor amigo (e de sua equipe também)

Como palhaço, Libar brinca com a ideia do erro, já que esse personagem é aquele quem cai, o perdedor, cuja maior habilidade é a aceitação da própria falha e a convivência com o que é aleatório e incontrolável.

“Num cenário onde as empresas estão sempre falando de inovação, criatividade e sobre sair da caixinha, não dá pra você fazer isso se não existir um ambiente de confiança para poder falhar. A única coisa que compromete a performance é o medo de errar e decepcionar”, enfatiza.

É impossível estabelecer um ambiente de plena confiança sem conexões profundas, o que também não acontece se situações de vulnerabilidade forem preservadas e escondidas. 

Para você, líder de um time que busca ampliar resultados, aposte na assimilação e discussão do erro, propondo sempre aprender e reaprender. “Assim é a ciência e a arte. Toda vez que uma empresa tenta trabalhar com a infalibilidade, ela se apoia numa mentira. Você deve se adaptar à falha, o que não impede do aleatório te pegar pelas costas sem você perceber”, completou o educador.