Paciência: 5 dicas de mães para que você aplique na sua vida profissional (e não perca as estribeiras)

Nota da editora: Um dos achados do nosso estudo em profundidade foi, justamente, sobre gênero. As mulheres são educadas e sensibilizadas para serem mais pacientes ao longo da vida. Isso, claro, vem da estruturalização do patriarcado que vê — erroneamente, diga-se de passagem — na resiliência e na tranquilidade uma pessoa mais submissa. Descobrimos, nos insights trazidos pela pesquisadora Andréia Rocha, que paciência é muito mais sobre ação do que passividade. Engana-se quem vê no ser paciente uma pessoa subalterna. Mesmo assim, nos valemos dessa nota para reafirmar que, de forma alguma, endossamos o pensamento de que a mulher é paciente por natureza ou precisa desenvolver a paciência por cultura. A pauta surgiu de dois comentários muito particulares em uma postagem que fizemos no Instagram da SPUTNiK, comunicando que lançaríamos conteúdos sobre a temática. Ambos vindos de mães e ambos compartilhando seus aprendizados com a maternidade e o desenvolvimento e nutrição de tal virtude. Esclarecimentos feitos, esperamos que façam uma boa leitura 🙂 

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“Minha mandíbula aperta enquanto os vídeos do Hulu carregam. Eu bufo quando fico presa na fila lenta da cafeteria. Carros lentos na pista rápida me levam a uma onda de ódio. Tenho vergonha da rapidez com que perco a calma por causa dessas pequenas coisas. Sempre desejei ser uma pessoa mais paciente, mas é impressionante saber por onde começar.

Anna Goldfarb

Se você se identificou com o depoimento, saiba que mesmo que você não seja uma pessoa particularmente paciente hoje, ainda há esperança de ser uma pessoa mais paciente amanhã. Portanto, se com frequência você se sente exasperado mais do que gostaria, aqui estão algumas maneiras de manter esses impulsos irritantes sob controle compartilhadas com quem manja muito do assunto: Alice Motta e Bianca Dallegrave

Como ser mãe (pai, amiga, qualquer parente!) da paciência 

Não tem como negar: muito (ou quase tudo) daquilo que sabemos hoje, aprendemos com nossos pais ou cuidadores. A gente vai crescendo e vendo o quanto trazemos da nossa infância para a vida adulta e, parando para pensar nisso, você vai concordar com o que foi dito bem ali no início. Todo mundo aprende algo cotidianamente, e aprender a ser paciente pode ser doloroso, mas não é impossível. Em meio ao caos cotidiano, quem consegue ter calma para respirar antes de falar ou agir pode se sentir privilegiado — e quem não consegue pode ficar calmo porque tudo é aprendizado, vivência, experiência. É meio clichê parecer clichê, mas a gente realmente aprende muito quando passa a viver um dia de cada vez.

No universo corporativo, a paciência é o troféu que todos querem erguer. Só que, muitas vezes, não se sabe nem por onde começar a ser mais tranquilo e generoso, a estar aberto a ouvir antes de falar — o que ajuda, certamente, a evitar discussões e conflitos desnecessários. Felizmente, a paciência é um traço das nossa personalidade passível de mudanças, e isso significa que você só precisa aprender como manter seus impulsos sob controle para não explodir por qualquer que seja o motivo.

Voltando à nossa infância, muita gente é capaz de lembrar que fez seus cuidadores se descabelarem milhares de vezes, mas dá pra lembrar também que, na maioria das vezes, eles recobravam a calma e nos levavam juntos nessa toada, apaziguando os ânimos para tudo voltar ao normal. 

Alice é mãe do Tom (dois anos) e Head de Operações; Bianca tem o Enzo (cinco anos) e o Thomas (dois anos) e trabalha em um laboratório de inovação. As duas tiveram diversas experiências antes dos filhos chegarem para estarem, hoje, num lugar em que podem dizer que, sim, é possível se exercitar para ser mais paciente. Bianca diz que antes do nascimento da prole não tinha tanta consciência sobre a necessidade de respeitar o tempo de cada pessoa. Já Alice conta que, depois de Tom, teve de fazer uma mudança fundamental de prioridades, o que aumentou a sua paciência.

Com essas duas histórias inspiradoras, desafiamos você a parar pensar: como manter o controle, motivado pelo que essas mães nos ensinam? Reunimos algumas dicas que vão ajudar você ser mais paciente no trabalho, tal qual Alice e Bianca, que aprenderam que a paciência, um atributo essencial para a maternidade, tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nossa visão do outro. Vem de papel e caneta na mão 🙂 

Qual gatilho desperta sua ira?

Comece descobrindo o que ativa a sua falta de paciência para entender como pode assumir o controle das situações. É engraçado que tanto Alice quanto Bianca trouxeram o mesmo ponto de vista por meio da experiência simples das crianças em calçar sapatos, o que exige muita paciência dos dois lados. “Se você observar uma criança tentando amarrar o sapato nas primeiras vezes, vai se dar conta o quanto nós adultos temos a ansiedade de interferir nesse momento que é tão importante para que ela possa se desenvolver. Quando a gente tem essa relação com nossos filhos, isso acontece a todo instante nas pequenas tarefas do dia a dia”, Bianca relata. Nesse exemplo, você pode substituir o filho pelo colega de trabalho para ver quais atitudes simples despertam o desequilíbrio. E foi o que Alice percebeu: “Você tem ideia de quanto tempo uma criança de dois anos demora para calçar um chinelo sozinha? E quando o Uber está esperando, sabia que demora mais? Com meu filho tenho uma condição básica e imutável que me obriga a ter paciência: ele tem dois anos. Ele está aprendendo tudo, ele precisa desse tempo porque botar o chinelo é algo novo para ele. Acho que é justamente isso que refrescou meu olhar para o resto: será que essa pessoa está demorando para fazer esse relatório porque ela está com dificuldades? Será que precisa de ajuda? Isso me faz repensar a irritação sempre”.

O que foge à regra é também um bom exemplo de gatilho explosivo, e um combinado não cumprido se torna a faísca para o conflito começar. Bianca diz que isso a faz perder a calma, e que tentar preservar os combinados é algo que ajuda a não alimentar desconfortos pessoais que podem impactar as relações (em casa e no trabalho). 

Quais os riscos de explodir?

Quando você perde a paciência, é como se um alarme fosse disparado no seu cérebro para que a sua resposta seja qualquer outra que não a calma. A chave é saber como você pode interromper o ciclo vicioso e explosivo para conseguir avaliar os acontecimentos e ver que você pode agir diferente cedendo lugar às decisões certeiras. Os gatilhos sempre vão existir — e não pense que as estratégias para se manter no lugar de tranquilidade precisam ser convencionais —: vale tudo, inclusive não fazer nada além de respirar bem fundo. 

“Além de preservar os combinados, em alguns casos eu canto. Quando o Thomas faz alguma birra, em vez de eu ficar tentando conversar sobre a frustração dele, tento desviar a atenção para outra coisa, então às vezes eu canto, outras mudo de assunto, proponho uma brincadeira”, revela Bianca sobre essa habilidade que desenvolveu na maternidade (mas que pode ser levada para qualquer situação). No maternar de Alice, seu filho a “ensinou a desenvolver uma certa generosidade com o tempo”, o que ela entende como paciência. “Quando você tem um bebê, precisa compreender que o tempo daquele serzinho não respeita o que nós instituímos como medidas, eles demandam nossa atenção a qualquer momento e temos que estar bem e sã para atendê-lo. Isso certamente torna mais fácil a ideia de que você pode fazer as coisas sem pressa e que outras funções e pessoas podem esperar você acabar o que está fazendo com seu bebê para resolver suas demais funções”. Tente substituir o bebê por uma tarefa no trabalho e você vai pensar duas vezes antes de cobrar seu colaborador sobre algo que ele não teve tempo suficiente para terminar.

Dá para começar de novo?

Uma atitude bem infalível é olhar para a situação inteira, como se estivéssemos do lado de fora, para conseguir enxergá-la sob um ponto de vista diferente e a partir disso conseguir focar, por exemplo, não no que nos irrita, mas no que fazemos que irrita o outro. Isso pode ajudar você a encarar tudo de uma forma mais ampla e equilibrada. É preciso incluir a situação irritante dentro de um contexto maior para conectá-la com o que vai levá-lo ou levá-la a um resultado libertador. “Acho que antes eu era mais impaciente com os outros e comigo mesma, porém, com a maternidade, esse contexto muda radicalmente já que você não tem mais controle nenhum sobre o tempo do desenvolvimento dos seus filhos e o seu tempo está, automaticamente, atrelado a isso. Então não adianta ser impaciente, tem de saber ponderar e equilibrar. Às vezes, cedemos tanto para o outro que também acabamos desequilibrando o nosso próprio bem-estar interno, então tenho buscado compreender melhor esses limites para ficar mais tranquila com as minhas escolhas”, explica Bianca. 

Como treinar a paciência?

Para ser o bom profissional que é hoje, você teve experiências anteriores que puderam treinar você para o mercado de trabalho. O resultado desse treinamento foi imediato? Com certeza não. E com a paciência não seria diferente. Não é possível se tornar mais paciente da noite para o dia. É um treinamento diário até chegar ao dia em que você vai poder dizer que, sim, é uma pessoa que sabe encarar boa parte das situações com tranquilidade. Quando você é mãe, a todo momento é preciso exercitar o olhar porque precisa aprender e ensinar ao mesmo tempo — assim como um líder dentro da empresa, que não pode deixar a ansiedade tomar conta da situação. Tom ensinou a Alice que é preciso priorizar, que é necessário “aceitar que certas coisas podem demorar um pouco mais e ninguém vai morrer por isso, que é importante reconhecer o ritmo de cada pessoa em vez de impor seu ritmo a todo mundo”. Ao mesmo tempo, ela ensina a Tom que é fundamental ter paciência, respeitar o tempo das outras pessoas quando ele quer algo, entender que as necessidades dele não são a coisa mais importante a todo instante. “Acho que a paciência é uma das pontas do ensinamentos sobre empatia”, completa. 

É possível ser realista?

Agora, você está a poucos passos de dizer que é paciente porque sabe o que desperta a sua raiva e entende como controlar as situações (e como se controlar!). O aprendizado é assim mesmo: você precisa mudar alguns aspectos da sua rotina, alterar um pouco seu estilo de vida para reduzir o estresse e aumentar a calma. Mas é importante ser realista sobre o que é possível aprender e mudar e o que ainda não dá para mexer. E não tem nada de errado nisso, afinal, criar objetivos intangíveis é o detonador para a impaciência. Estar consciente do que pode ou não pode ser controlado por você é essencial para não ficar “dando murro em ponta de faca”.

Para Bianca, mesmo com os inúmeros aprendizados que a maternidade traz e a própria relação diária com os filhos, nem sempre é fácil levar tudo isso para o trabalho. “Tento com frequência promover um mindset voltado mais para o aprendizado e menos para a frustração do que deu errado — mas que pode dar certo na próxima vez que a gente tentar. Isso acaba trazendo uma nova perspectiva para as empresas, e que eu me identifico muito, que é o ‘antes feito que perfeito’. A busca constante do perfeccionismo tem matado (na maioria dos casos) as possibilidades de inovação, e vejo que essa busca é uma construção que vem da nossa infância. Outro ponto que acredito muito é sobre a organização das prioridades e dos combinados. Se temos isso claro no alinhamento e nas diretrizes centrais da empresa, tudo acaba fluindo de forma mais leve e eficiente”. Para arrematar o pensamento, Bianca levanta, ainda, um importante aspecto que a maternidade fez mudou dentro da vida profissional e pessoal em relação à empatia e acolhimento das vulnerabilidades, sejam as dela, dos filhos ou de quem ela trabalha junto: “Autoconhecer-se e entender quais são os sentimentos ativados de acordo com cada situação é fundamental para construir uma carreira sólida e humana. A maternidade é um grande despertar para tudo isso, pois junto com uma pessoa que nasceu, nasce também uma nova Bianca, agora mãe, e isso tudo altera a forma como vemos e entendemos o mundo e as pessoas”. 

Na experiência da Alice, ser mãe, em um contexto geral, trouxe mais clareza em relação ao lugar do trabalho em sua vida.. “Eu tento ser muito consciente dos meus passos e tento sempre olhar em volta, refletir sobre onde estou. Sempre fui assim. Sabia que a maternidade mudaria drasticamente a minha vida e quis buscar esse novo ponto de vista ativamente, me transformar por ele. De certa forma, acho que isso me fez chegar onde cheguei no meu trabalho e, ao mesmo tempo, conseguir viver a minha maternidade com plenitude, mesmo me dividindo em dois”.

Dicas extras (e valiosas!) das mães para você exercitar a sua paciência

A gente disse que você teria muito a aprender com essas mães sobre paciência, né? Por isso, não poderíamos deixar de fora algumas dicas que Alice e Bianca compartilharam com a gente  para exercitar a calmaria que há dentro de cada um de nós. Você pode, por exemplo, começar fazendo uma meditação logo na primeira hora da manhã como a Bianca faz, e desativar algumas notificações dos aplicativos de celular que tiram sua atenção (uma dica da Alice). O importante é descobrir a sua maneira de relaxar, respirar fundo e aproveitar algum momento do dia para exercitar a paciência. Quer mais? Aqui, ó: 

  • Ler livros longos que não sejam relacionados ao seu trabalho
  • Começar a exercitar um olhar mais atento a tudo, desligando o seu “modo automático” (uma boa tentativa é se comprometer a brincar com uma criança por trinta minutos sem pensar em mais nada, com presença ativa) 
  • Aproveitar momentos em que nada pode ser resolvido, como em uma viagem de avião, para desconectar e simplesmente só esperar chegar ao destino
  • Escutar podcasts com mulheres que falam de suas experiências pessoais e profissionais (muitas são mães também!): Jogo de Damas, Mamilos e É nóia minha
  • Investir em formação pessoal e profissional por meio de cursos, palestras, redes de apoio
  • Curtir seu tempo livre assistindo documentários interessantes: The secret life of babies, O começo da vida e One strange rock

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