Há ciência por trás da paciência?

Sabemos, ainda, muito pouco sobre paciência. Apesar de ser uma virtude altamente relevante na vida cotidiana, a paciência ainda não foi estudada sistematicamente entre culturas. Um estudo chamado Patience in Everyday Life: Three Field Studies in France, Germany, and Romania cruzou informações importantes para tentar mapear o ritmo de vida. Embora não houvesse evidências para essa hipótese e os resultados apoiassem a noção de que a paciência é específica de cada situação, foi possível compreender que o tipo de reação exibida nas situações de espera diferia entre as culturas, indicando maneiras específicas de lidar com a impaciência. Não sabíamos, algumas semanas atrás, como seria lidar com a ansiedade durante uma quarentena forçada, mas tão necessária à sobrevivência mundial diante do desconhecido.

O que sabemos sobre a habilidade da paciência ainda é pouco, mas de forma nenhuma irrelevante. Temos conhecimento, por exemplo, que não se nasce paciente. Os bebês choram quando têm fome. Não toleram a insatisfação imediata de uma necessidade primária. É pouco a pouco que vão aprendendo que, ainda que demore um pouco mais, finalmente lhe darão de comer. Impacientam-se, mas com o tempo aceitam, sem chorar, o sofrimento da fome, porque sabem que o alimento chegará. A natureza da criança é a impaciência, porque poucas coisas dependem delas, quase nada está sob seu controle. Crescemos e vamos aprendendo a lidar com as situações das mais inesperadas possíveis. Nossa paciência vai ganhando contornos e elasticidade, vamos aprendendo até a viver, com autocontrole, durante uma pandemia que foge completamente ao nosso domínio. 

Um estudo feito por Sarah Schnitker, chamado The Neuroscience of Patience, descobriu — em outro contexto mas que é válido porque se relaciona ao ser humano — que, caso uma recompensa oportuna seja garantida, nossa serotonina aumenta em até 75% garantindo o que se nomeou “o efeito da paciência”. Os benefícios vão além da resiliência momentânea: tal pesquisa também comprovou que esse aumento da paciência garantia diminuição da depressão e o aumento do afeto positivo em relação a uma situação de controle, sugerindo que a paciência pode, sim, ser modificável.

Paciência como o hábito de saber esperar

Nessa sua investigação sobre a relação entre a neurociência e a paciência, Sarah Schnitker ressalta que a paciência é algo fundamental para a experiência humana como um todo, afinal, esperar por algo é inevitável, a gente simplesmente não tem para onde fugir ou se esconder. Quanto mais você se aborrece e se irrita no dia a dia, mais isso pode afetar negativamente a sua saúde física e mental. Claro que cada um vai reagir de uma maneira diferente mesmo vivenciando a mesma situação, mas se ambas as partes estiverem focadas na tranquilidade, a solução dos problemas fica muito mais palpável. Sarah revelou, ainda, três expressões distintas de paciência: uma paciência útil ao tratar com dificuldades na vida, uma paciência para lidar com aborrecimentos pelos quais passamos diariamente, e uma paciência interpessoal, que diz respeito aos relacionamentos com outras pessoas. Imagine, agora, uma situação estressante no seu trabalho, algo que saia do seu controle e que precisa ser solucionado. Às vezes você não vai conseguir ir para casa sem levar esse problema na bolsa, e isso pode levar à irritação mais facilmente com alguma coisa simples, como uma torneira que parou de funcionar. Dentro desse mesmo cenário, por estar irritado com o que precisa resolver amanhã na empresa e com a torneira estragada, você vai se exaltar esperando o seu filho entender que a questão de matemática precisa ser respondida seguindo uma outra lógica, e não a que ele está usando há mais de 15 minutos sem sucesso. Pronto! Em menos de 24h, você experimentou situações corriqueiras nas quais poderia usar esses três “tipos” de paciência antes de fazer suas escolhas: ficar “pê da vida” com o colega de trabalho, quebrar a torneira e desistir de ensinar a lição. Ou respirar fundo, parar para analisar cada momento e tomar, paciente, as melhores decisões.

Esse é um exemplo, mas acontece todos os dias com todo mundo, em diversas proporções. E é exatamente por isso que a gente insiste no fato que, mesmo que pareça difícil (até impossível de vez em quando), aprender a ser paciente é um mal bem necessário. É a sua capacidade de saber parar e esperar que vai aumentar suas emoções positivas e sua satisfação com a vida, no sentido mais hedônico que isso possa ter. Você vai passar a enxergar a paciência sob a ótica da motivação, do bem-estar e da autonomia. O que vai na contramão do que te desgasta, descontrola, do que é incerto e tira o seu sossego. Ser paciente não é sinônimo de ser fraco, e sim de estar presente, consciente de que é impossível ter o controle das situações, mas é lindo (e libertador!) quando você consegue se controlar. 

Nada acontece na sua zona de conforto

A gente precisa inverter a ordem de certas coisas. O caminho para o sucesso fica mais curto e leve quando você coloca o objetivo como ponto de partida, e não como destino final. E não tem nada de errado em mudar o rumo no meio dessa caminhada, mesmo que você se perca, em algum momento, vai se (re)encontrar. O segredo é, nesse processo, conseguir se (re)organizar, olhar mais uma vez para o cenário, (re)analisar a estratégia, para, enfim, dar as mãos para a sabedoria de se (re)conhecer aproveitando o tempo de espera.

Tendo a falta de paciência como start, a SPUTNiK decidiu se aprofundar no tema para ajudar você (e a nós mesmos) a aprender como ser mais paciente em todos os âmbitos – pessoal, profissional, relacional – e para isso a gente convidou Andréia Matos, que estuda culturas vivas e mutantes, comportamentos e suas manifestações materiais e simbólicas, para descobrir juntos o que a paciência tem a ensinar. Temos certeza de que você vai curtir o que temos para compartilhar sobre essa pesquisa rica, intensa e reveladora.

Desde os primórdios, pode-se encontrar vestígios de que a paciência é algo desejado pelos seres humanos, mesmo que sob diferentes perspectivas. O que foi mudando é a ideia de que, menos do que difícil de ter, a paciência traz consigo autocontrole, tolerância, compaixão, e indo mais fundo, fé, amor e esperança. Na verdade, esperança já representa, por si só, o ato de esperar por algo que está por vir, e para esperar você precisa de quê? Pois é, a resposta está bem aí, na sua frente, esperando para ser encontrada. Por falar em respostas, a gente procura por elas o tempo todo, e isso nos deixa ainda mais impacientes, o que significa estar, de um jeito ou de outro, rejeitando o presente enquanto se imagina o futuro ideal. Estar impaciente é fugir da realidade, é olhar sempre para frente e não para o agora, que é exatamente onde a gente tem que viver para ter mais chances de estar preparado quando o amanhã chegar. O pior é que, às vezes, esse futuro chega tão rápido e a gente se vê, de novo, impaciente para saber como lidar com ele.

A ciência por trás da paciência mostra que, mais do que ser capaz de esperar, a paciência tem que ser trabalhada dentro do viés da constância, que nada mais é do que concentrar a sua atenção em apenas uma atividade específica por vez. Isso pode ser uma aula de bordado ou usar o processo lento de fazer um pão como uma ferramenta para diminuir o ritmo, mesmo que por algumas horas, o que já se tornou uma espécie de fenômeno cultural para um lifestyle no qual se desconectar da loucura da tecnologia é se voltar para o que é real, que te alimenta, te faz sentir vivo e ativo, quase que conectado emocionalmente com uma atividade que exige concentração e muita espera. Andréia cita o neurocirurgião Lamberto Maffei para trazer uma reflexão sobre a necessidade do cérebro de pensar devagar, mesmo sendo uma parte do corpo que, naturalmente, se permite ter reações rápidas e automáticas para facilitar a nossa sobrevivência. Para Maffei, esse mesmo cérebro é constituído por um mecanismo sofisticado que tem a função de refletir de forma bastante elaborada, em um processo mental que é lento porque carrega consigo o peso da memória, da dúvida e da incerteza do raciocínio. E isso acontece com os seres humanos a todo momento porque todos queremos acelerar processos que deveriam ocorrer devagar, antes de se permitir dar grandes saltos. “O sucesso da noite pro dia é um mito contado a partir das exceções, e não da regra”, Andréia conclui.

Quando você tira um tempo para si mesmo, para aprender uma nova habilidade, para se dedicar a um projeto inovador, isso leva tempo. Você está investindo em algo porque acredita que isso vai te levar além de onde você se vê hoje. Você, na verdade, decidiu sair do modo automático para estar presente em algo que quer fazer com maestria, é muito mais sobre colocar sua energia e esforços do que focar no objetivo per se. É , ao invés das 10 mil horas de estudo para se tornar um expert em algo, ser como um takumi, o mais alto nível de artesão no Japão, que não se torna mestre antes de refinar seus conhecimentos por 60 mil horas. É concordar com Michelangelo quando ele disse que “gênio é aquele que tem paciência eterna”.

Dá até um calafrio pensar em ser paciente eternamente, concorda? Mas e se você pensar que foi impaciente até hoje, depois de ter vivido vinte, trinta, sessenta anos? Nunca é tarde para aprender a ter paciência, até para escolher se entediar, o que é visto por muitos de nós como o insuportável “ficar sem fazer nada”: curtir o ócio que pode ser muito criativo — como bem disse o professor e sociólogo italiano Domenico De Masi — para se dar ao prazer de conciliar trabalho e lazer antes de se entregar à facilidade de desenvolver melhores ideias exatamente porque se desligou do que tanto te incomodava para equilibrar funções profissionais com seu tempo livre. Se você está cansado e saturado, vai ser mais difícil seu cérebro atingir o desempenho máximo da criatividade. Byung-Chul Han, em seu livro Sociedade do Cansaço inspirado pela exaustão, apresenta a violência neuronal, conceito em que as pessoas estão cada vez mais em busca de resultados e se tornam, elas mesmas, vigilantes e carrascas de suas ações, em um cenário mundial no qual trabalhamos mais para receber menos. A produtividade excessiva passa a nortear os profissionais, que se perdem no conceito real de desempenho, caindo, assim, no abismo da depressão e do fracasso; o ser multitasking passa a representar um excesso de estímulos, e o resultado não poderia ser diferente: atenção rasa que leva à fadiga e impaciência.

Você é human being ou human doing?

Nessa ideia sobre se desconectar para não pirar, Andréia conta sobre a nova tendência holandesa de bem-estar: o Niksen, que é o permitir que seu cérebro vague ativamente alterando a percepção de tempo desperdiçado pela apreciação do tempo inativo na sua rotina. É ser paciente (e sábio!) para deixar de ser ocupado e escolher não fazer nada, mesmo que seja no seu break de 10 minutinhos para o café. Essa corrente de pensamento abraça o “estar ocioso sem propósito” ao deixar a mente livre para ir aonde quiser, saindo do estado constante de consciência se for preciso, para deixar os pensamentos fluírem sem direção. “Pesquisas sugerem que esse tipo de relaxamento, além de reduzir a ansiedade e até retardar o envelhecimento, pode aumentar a criatividade, a resolução de problemas e a memória”.

A paciência (e a falta dela) como ciência não é uma exclusividade dos humanos, mas sim uma característica evolutiva de todos os animais. Todos nós, pessoas, temos liberdade de escolha, e se temos como opções recompensas de curto ou longo prazo, a tendência é optarmos pelo que demora menos tempo para alcançar. Ninguém quer esperar por nada. Mas deveria. Sabe por quê?

O futuro é incerto. Felizmente essa é uma certeza que temos, afinal como seria chato sempre saber o que vem a seguir. E mesmo ansiosos pela gratificações imediatas, ainda assim, somos dotados da capacidade de esperar anos por outros tipos de ganhos. Se compararmos os humanos com chimpanzés e bononos quando falamos sobre recompensas, vemos que os humanos tomam decisões baseadas em diferentes contextos, e por isso se mostram dispostos a esperar mais por dinheiro — recompensa abstrata — do que por comida; os animais exibiram maior paciência do que os humanos quando precisaram esperar pelo retorno maior . Da mesma forma, assim como os humanos, muitos primatas têm a perspectiva de futuro e a capacidade de fazer planos. Mas diferente de nós, eles conseguem desenvolver maneiras mais flexíveis de lidar com o amanhã porque estão mais dispostos a esperar, com menos impulsividade, por exemplo, quando se trata do acasalamento e do momento certo de se relacionar para procriar, ou de uma recompensa alimentar maior quando a quantidade se torna a motivação para esperar um pouco mais para, finalmente, comer mais também. 

A neurociência por trás da paciência

Em busca da neurociência da paciência, Andréia descobriu que a amígdala, parte do nosso cérebro responsável por eliminar ameaças e regular emoções, tem grande influência na impaciência porque, mesmo tendo evoluído junto com o ser humano, ainda não é tão eficiente em distinguir o que é realmente ameaçador do que apenas parece uma ameaça. Um bom exemplo disso na pesquisa é quando temos de nos relacionar com uma pessoa desagradável, e o que podia ser simples, te deixa extremamente irritado, às vezes deixando o momento mais terrível do que realmente é porque a amígdala pode encarar essa pessoa como um grande tigre feroz. O que faria quem está treinando a ser mais pacientediante de situações como essa? Pararia, analisaria o que desencadeia a irritação para, em seguida, dar o primeiro passo para assumir o autocontrole.

Até a tomada de decisões baseada na paciência tem ligação com a neurociência. Queremos recompensas oportunas, e não tem nada de errado nisso. O que precisamos entender é que a paciência é, em grande parte, uma questão de confiança — em si mesmo e no outro —; por outro lado, esperar por gratificações tardias (até mesmo 40 anos depois!), mostra que estamos nos planejando porque acreditamos que essa espera será, no final, bem relevante para os nossos objetivos mais amplos. Isso conduziu a pesquisa, aliás, a trazer um panorama sobre o que representa para o indivíduo, hoje, olhar para a paciência a longo prazo. O presente que construímos é direta e indiretamente afetado pelo futuro que existe apenas na nossa imaginação, sem contar o passado que ainda não entendemos por completo. E não tem nada de errado nisso, só precisamos estar presentes na ideia de que o projeto de futuro que queremos tem de começar a acontecer agora, que não temos de lutar contra isso, mas aceitar e viver como se fosse algo corriqueiro. E é.

Fica até difícil pensar nisso em meio a uma pandemia, um tempo incerto e desconhecido, sem falar em outros recentes acontecimentos na política, outros no âmbito social e ambiental: nos vemos sem perspectivas. Gallup, uma empresa global de consultoria e análise focada no ambiente organizacional, descobriu, em uma pesquisa realizada em 2018 em mais de 140 países, que os sentimentos negativos, como tristeza, raiva, estresse e preocupação, aumentaram drasticamente na última década: os resultados mostram, por exemplo, mais de um terço das pessoas relatando muita preocupação (39%) ou estresse (35%), três em cada 10 (31%) com dor física e pelo menos um quinto com tristeza (24%) ou raiva (22%). Em contrapartida a essas reações negativas (e para encontrarmos alternativas para fugir delas), projetos como o The Long Time Project nos convidam à mudança, a alterar a dinâmica nas esferas pessoal, cultural e social, o que muda, para melhor, o desenvolvimento da ciência, da política, da economia e da tecnologia  — e, mais ainda, no modo como nos sentimos, para desenvolvermos empatia e nos conectarmos, o que vai gerar mudanças na maneira como nos comportamos a curto prazo para impactar o que chega mais à frente.

Você pode estar se perguntando: afinal, o que tudo isso representa? 

Não sabemos a resposta, mas estamos tentando indicar caminhos — uns mais curtos, outros mais longos — para você, junto com a gente, aprender a viver com essa tal paciência, a aceitar a lentidão de uns processos, a profundidade de outros, e do outro. Nem a neurociência da paciência poderia prever situações que fogem tanto ao nosso controle, como essa que vivemos agora, em março de 2020, e que logo ali, em janeiro do mesmo ano, nem sonhávamos estar enfrentando. O mundo muda porque a gente muda, e seguimos, assim, o curso da natureza, que nos ensina dia após dia que não adianta correr nem se estressar (pelo menos não a ponto de nos paralisarmos). Só nos resta ter paciência para ver o futuro chegar, de mansinho ou de supetão. E se você estiver pronto para recebê-lo, tranquilo e consciente, disso você pode ter certeza: respira fundo, toma seu tempo e acredite que tudo vai, sim, ser mais leve. Estamos descobrindo como controlar um vírus e como conviver com o rastro que ele deixa. Mas controlar a si mesmo — suas emoções, ansiedade, expectativas, frustrações — ah, isso só depende de você e da sua paciência.

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